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O Mal da Perfeição | Luzes e Sombras

O filme, cuja  principal atriz Natalie Portman ganhou o Oscar como melhor atriz em 2011, retrata bem a luta de uma bailarina, representante do ser humano em geral, pela perfeição. Dirigido por Darren Aronofsky, a película consegue mostrar os bastidores físicos e emocionais do mundo do balé.

Filha de uma bailarina que deixara a profissão ao engravidar para criá-la, Nina torna-se alvo da projeção de sua mãe para que possa realizar o sonho que tivera e nunca havia conseguido: ser bailarina prima de uma importante companhia de balé em New York. Sua mãe projetara nela, não somente seu ideal de uma profissão bem sucedida, como de uma moça perfeita em todos os sentidos: na área sexual, profissional e emocional.

Contudo, sua exigência e várias cobranças sobre sua filha gerara uma jovem que somatizara sua incapacidade de ser tudo aquilo que sua mãe, e consequentemente ela mesma exigiam de si: perfeição.

Vivendo constantemente para treinar e lutar por um lugar no mundo do balé, a jovem inspira-se numa grande bailarina de sua companhia de balé. A história se desenrola num cenário sufocante de uma arte que demanda técnica, uma boa dose de individualismo, criatividade, e principalmente flexibilidade para transitar todas as esferas da vida e mostrá-la no palco.

A narrativa traz à luz várias facetas do mundo supostamente belo esteticamente, mas com muita podridão ética. Neste mundo, somente vence e brilha os que souberem conquistar o diretor da companhia, os jovens e os que atrairem público. A bailarina prima ao envelhecer, ou tornar-se lugar comum, é descartada como um velho pano de chão. As outras bailarinas, por sua vez, esmeram-se cada vez mais nos treinos com a esperança de serem chamadas para o grande elenco.

Constantemente cobrada e incentivada pela mãe, Nina consegue driblar suas dores emocionais  através do desenvolvimento de vários transtornos mentais: auto-mutilação, anorexia-bulimia, psicose, personalidade limítrofe, dismorfia (auto imagem distorcida do corpo), dentre outros.

O Lago dos Cisnes exigia que ela interpretasse o cisne branco ( o verídico) e o cisne negro ( mau, mentiroso, usurpador), contudo, seu diretor se incomodava com o fato de que ela seria um excelente cisne branco, por sua meiguice e subserviência, mas não tinha a malícia, a sensualidade e a maldade necessárias para interpretar o cisne negro ( vide o racismo em contrapor as duas cores- branco meigo; negro- mau- desde a época em que foi escrita esta peça musical). Em vão, Nina tenta despertar para a sexualidade, mas a imagem da mãe sempre presente como seu super-ego ( a censura) não lhe permite desenvolver, e a sentença constantemente lançada por sua mãe de que era uma (garotinha doce) também lhe incapacitava de mostrar sua sombra.

Jung, o psicanalista, declara que existe dentro de nós deuses e demônios, luzes e sombras. O ser humano maduro é aquele que consegue confrontar suas sombras e trazê-las à tona com criatividade e transformá-las. Nina não conseguia enfrenter seus demônios. Finalmente, para se tornar o cisne negro, acaba, em um delírio psicótico ferindo a si mesma para alcançar a perfeição.

Após interpretar belamente a peça e encantar o público com sua encenação do cisne negro, ela delira as frases: “Foi perfeito, foi perfeito. Consegui.” e desfalece. Claro, se foi perfeito, não há nada mais que se procurar alcançar. Após a perfeição, somente a morte, pois o ser humano vive constantemente em busca do ideal de perfeição, sem nunca, em vida, conseguir atingi-lo. Daí a fonte de muitas das depressões: construimos um ideal de perfeição, uma identidade para nós, que provavelmente nunca alcançaremos em vida, e quando chegamos a esta compreensão, ou consciência, caímos em depressão porque a sociedade, nossos pais, nossa família e nós mesmos exigimos nada mais nada menos de nós do que a PERFEIÇÃO.

Também, ou principalmente no mundo religioso se espera do ser humano uma perfeição divina, levando a muitos a negarem suas sombras, seus demônios e projetarem no outro aquilo que temos interiormente e não queremos admitir. Vive-se constantemente em busca de algo inatingível.

Quão bom seria, se compreendêssemos que nossos filhos nunca serão aquilo que não conseguimos ser. Que não lançássemos sobre os filhos, amigos, marido, esposa e nem sobre nós mesmos tamanha expectativa: a perfeição!

Pois, quando se atinge a perfeição, se é perfeito, termina, morre. Nesta vida meu amigo, minha amiga, ninguém, mas ninguém mesmo atingirá a perfeição. Vivamos, portanto, escolha após escolha desejando simplesmente ser o melhor que pudermos, amando a Deus, ao próximo assim como amamos a nós mesmos.

Será isso possível?

Silvia Geruza

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