Encontro íntimo

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O Silêncio do vazio

Visitei o museu judaico em Berlim projetado por Daniel Libeskind. Ele o projetou de tal maneira que quem o visitasse saísse com o corpo e a cabeça em desordem. Em um jardim, plantou colunas irregulares para quem passasse por elas saísse totalmente tonto. Uma frase me marcou: visite este jardim a seu próprio risco, porque ninguém pode deixar a história de Berlim para trás sem sentir a cabeça desordenada, angustiada e tonta.

Em 1933, quando Hitler assumiu o poder, já afastou os judeus civis de todos seus empregos e funções. De repente advogados, médicos, profissionais de todas as áreas começaram a ser perseguidos. Na segunda guerra mundial, por volta de 1938 Hitler iniciou uma campanha pela raça pura, e incluiu em seus planos a extinção de judeus, pessoas com retardo mental, gays, ciganos, pessoas com deficiências. Porém, foi nos judeus o foco mais cruel de seu exército.

Judeus foram arrancados de suas casas, destituídos de suas famílias e enviados para campos de concentração. De Berlim, mais de 560.000 judeus perderam seus bens, seus lares, sua paz, sua identidade. Não sou historiadora, nem tampouco teóloga, mas ao ver a história dos muitos surtos de perseguições que os judeus sofreram, as maiores motivações foram de vingança religiosa e preconceito. A raça pura perseguida por um lunático que esqueceu que a cor da pele e o formato do rosto não são requisitos suficientes para o rumo à perfeição.

Algumas coisas me vêem à mente quando observo perseguições às pessoas por sua orientação sexual: que obsessão é essa de certas pessoas quererem mandar ou se importar com a sexualidade de outros?
Quando observo perseguições às pessoas por confessarem esta ou aquela fé, pergunto- me quem lhes deu o direito de interferir ou querer interferir naquilo que é mais íntimo de um ser humano? Sua crença. Como posso querer perseguir alguém por não seguir aquilo que um dia eu mesma tive que tomar conhecimento e aceitar? Fico pasma quando vejo maridos ameaçando esposas por seguirem essa ou aquela religião. As questões da alma pertencem somente à pessoa, assim como sua sexualidade.

Raça, limpeza étnica. Existe algo mais cruel do que esse conceito? Limpeza étnica.
Pureza étnica, racial. Quem pode em sã consciência olhar para seu próprio umbigo e clamar que sua raça é a melhor e a única? Somente do topo de sua arrogância alguém pode clamar como melhor sua raça, tribo ou nação, ou até mesmo seu próprio status. Quem somos nós pobres seres mortais, um nada diante do vasto e inescrutável infinito, para perseguir e tentar destruir aqueles que iguais a nós, mas que consideramos ” inferiores” ? Como afirmava o filósofo Sêneca:” Nós pobres mortais que somos, agimos como se fôssemos imortais.”

Em uma das salas do museu, 10.000 faces talhadas em bronze, soltas para que ao andarmos por cima delas pudéssemos ouvir o barulho angustiante como dos gritos de todos os mortos no cruel holocausto. Que sensação de impotência, angústia e tristeza. Ao se retirar de lá temos que passar por vários espaços vazios. Sim, o vazio do silêncio da humanidade diante da dor dos perseguidos e massacrados. O silencio do vazio ou o vazio do silêncio. Os dois se confundem na mente atordoada de quem perde seu chão, seu abrigo, sua segurança, sua identidade, sua paz.

Chorei. Ao sair do museu, deparei- me com um lindo túnel coberto de plantas. Não sei o que queria o arquiteto quando o projetou. Prefiro ficar com minha interpretação de que há beleza e vida quando esquecemos as diferenças, as vinganças e abraçamos e acolhemos o outro como nosso igual,  a despeito de sua crença, sua raça, sua orientação sexual.

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