Encontro íntimo

Bem vindo!

Este é um espaço para falarmos sobre assuntos que raramente são tratados em público e que considero necessários para uma vida saudável e alegre. Espero que você seja edificado e também se divirta!
Obrigada por sua visita!

Home . Artigos . Dizer não ao machismo é dizer não ao estupro

Artigos

Dizer não ao machismo é dizer não ao estupro

mulher pintada

 

Dizer não ao machismo é dizer  não ao estupro
Silvia Geruza F. Rodrigues

Recentemente o Brasil horrorizado recebeu a notícia de que uma jovem de 17 anos havia sido estuprada por 30 homens. Alguns afirmam que foram 33 traficantes e a arrastaram de uma balada, outros que um ex-namorado chamara os amigos para se vingar dela. Nenhum dos dois justifica um estupro. Hashtags, fotos no instagram, twitter e facebook foram invadidos por notas de indignação. No Brasil uma mulher a cada três horas é estuprada, oito por dia, isso em dados denunciados pelo número 180. No Rio de Janeiro, 12 mulheres são estupradas diariamente. Muitas não tem coragem de denunciar, por medo ou por vergonha.

Há muito tempo luto contra o machismo, apesar de não ser feminista militante. Acho até tedioso ler muitos textos das feministas ferrenhas. Não creio que se necessite tornar-se inimiga do homem para lutar pelos direitos das mulheres. Deveria haver uma harmonia entre os gêneros.

No meu livro  Um outro gênero de Igreja * sobre a biblicidade da mulher na liderança na Igreja, trabalho esse desprezo e desvalorização da mulher, que se arrasta há séculos.

“A ideia da inferioridade feminina perdura desde a antiguidade, quando os primeiros filósofos e médicos, seguidos pelos Pais da Igreja com conhecimento distorcido do formato biológico feminino e próprios conceitos misóginos disseminaram atitudes exclusivas contra a mulher, negando-lhe o direito de votar, de interagir política, social e espiritualmente, isolando-a em trabalhos domésticos, educação de filhos e exercendo papeis secundários em quase todas as esferas do cotidiano .” (p.11).

Através de meios de comunicação, mídia e pregações de púlpito, a Igreja Protestante, na sua maioria, coloca a mulher à parte como cidadã de segunda classe, ensinando-a a se submeter à liderança do homem, reconhecendo as diferenças de funções. Como a história é geralmente escrita pelo homem, mulheres permanecem ocultas e afastadas da literatura geral. Embora muitas tenham escrito brilhantemente e lutado com heroísmo, somente o nome do marido, quando casadas, surge no cenário literário, ou mundial.  Quando poucas aparece, é porque foram consideradas “excepcionais”.

No livro O martelo das bruxas, de Kramer & Sprenbger (1971),  escrito originalmente em 1484 por esses dois inquisidores, podemos observar o pensamento medieval sobre as mulheres, como ‘fracas’, ‘enganadoras’, intelectualmente como crianças’, defeito de formação’, ‘animal imperfeito’, ‘raiz da feitiçaria’, mostra claramente o mínimo valor dado às mulheres.Ora, admira que a mulher seja objetificada com a ideia vinda de séculos e séculos sobre seu corpo e sua própria identidade:

“Numa bem suja e vil oficina
Tu foste fabricado de um limbo(que é) tão medonho e tão miserável
que meus lábios não se prestam a dizer-te.
mas se tens um pouco de senso,
poderás bem saber
que foi estrume podre e corrompido
o corpo frágil em que te alojaste,
de  onde foste atormentado oito meses e mais,
tu saíste por uma vil passagem
e caíste no mundo, pobre e nu…”
(Franciscano Giacomino de Verona, Metade do século XII).

Agostinho, um dos principais teólogos da Igreja Católica (Séc. IV d.C.) afirma que as mulheres pela “‘lei natural’ devem serviros homens, porque seria somente a imagem de Deus através do seu marido. “ (…) “os homens por sua natureza, se preocupam mais com o espiritual, enquanto as mulheres se incomodam mais com o físico e o sensual” (Geruza, pp 24-25)

“Ambrósio derivou a palavra latina para mulher, mulier, de mollities mentis (mente mole), contrastando com a derivação de vir, homem, de animi virtus, significando fortaleza da alma”. (p.25, Um outro gênero de igreja).

Não sei se haveria muita diferença do que algumas letras de funk usam para descrever a mulher, e muitas descrições de ‘santos’ da igreja sobre a mulher.

“Você não sabe que uma mulher é uma quimera. Aquele monstro tem três formas, sua face era de um leão nobre e radiante, tinha o ventre podre de um bode e braços de um rabo
virulento de uma víbora. Ele quer dizer que uma mulher é bela de se ver, porém contamina com o toque e mortal de se ter.(…) A voz delas mata os passageiros esvaziando suas bolsas, consumindo sua força e fazendo com que se esqueçam de Deus. (…). Sua postura revela a vaidade das vaidades. (…) A mulher é um inimigo secreto e sagaz. (…). É mais perigosa do que o engano dos caçadores porque os homens não são pegos somente através de seus desejos carnais quando veem e ouvem as mulheres. S. Bernardo afirma: ’A face delas é como um vento que queima, e sua voz o sussurrar das serpentes’”. (Martelo das Bruxas, in: Um outro gênero de Igreja, pp, 27-29, Silvia Geruza)

Mc Nego blue:

Depois da balada, te faço um convite
Se tiver solteira vem pra minha suíte.
Mulher mulher mulher…
Eu te dou condição, assim que tem que ser
Nóis fecha camarote só para ver o coro comer
Mulher mulher mulher

Mulher só serve para ir para a cama? Se ela é toda sensualidade, como diz Agostinho.

Extraído do Funk Club

Mu-mu-mulher é porca
Porca
Porca
Quando a mulher é porca
Cheira a bacalhau
Quando a mulher é porca
Tem gostinho de sal
Quando a mulher é porca
Chamam de jaburu
Quando a mulher é porca
Pega mal pra chuchu
Quando a mulher é porca
Porca

Qual a diferença dessa letra do artigo que chama o ventre da mulher de verme podre? A ideia é a mesma. A inutilidade da mulher perante a superioridade do homem.

Mc Pocahontas – A mulher do Poder.
Gosto de gastar, isso não é novidade
Hoje eu já torrei mais de 10 mil com a minha vaidade
É salão de beleza, roupa de marca, sandália de grife no pé
Bolsa da Louis Vuitton, sonho de toda mulher

No inconsciente coletivo, de geração a geração a imagem da mulher formada pela sociedade é de vaidosa, carnal, sensual, interesseira e fútil.

“Para concluir, toda bruxaria vem do desejo carnal, que nas mulheres é insaciável. (…). Para obter a satisfação de seus desejos, portanto, elas fazem pacto com todos os demônios”. Martelo das Bruxas in: Rodrigues, Silvia. Um outro gênero de igreja, p.28)

Não tenho espaço aqui para falar do conteúdo do conceito que os principais filósofos da Antiguidade formaram sobre a mulher, porém, enquanto não mudarmos nossa concepção e preconceito contra a mulher considerando-a cidadã de segunda categoria, inferior ao homem e incapaz de liderar, a mentalidade do estupro continuará e se perpetuará.

Enquanto não abrirmos os olhos para o fato de que a mulher não é e nem quer ser objeto de desejo, continuaremos com a cultura do estupro.

Enquanto não pararmos de aceitar conceitos e preconceitos sem um senso de crítica, a mulher continuará isolada, desvalidada, desvalorizada, com sua identidade sendo construída por uma sociedade machista e misógina.

 

*Rodrigues, Silvia Geruza – Um outro gênero de igreja. São Paulo: Fonte Editorial, 2011.

 

 

 

 

Compartilhe

Deixe seu comentário