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Escolhas e idealização- Escolher ou não escolher eis a questão.

Escolhas e idealização. Escolher ou não escolher, eis a questão.

 

Silvia Geruza F. Rodrigues

 

A vida é feita de escolhas. Algumas são simples: como escovar os dentes assim que levantar, o que tomar no café da manhã. Para as mulheres as coisas começam a complicar na hora de escolher uma roupa: o armário cheio de roupas e elas exclamam: eu não tenho nada o que vestir hoje! Bem típico!

Contudo, para algumas escolhas precisamos de mais razão e menos emoção: com quem namorar, casar, qual profissão, qual faculdade, onde morar, quando mudar…ficar, partir, deixar, reconciliar… e por aí vai toda complicação começa, principalmente no âmbito profissional e relacional.

O mito do amor romântico pode ser um fator atrapalhador na escolha amorosa. Mas, não falaremos sobre isto neste artigo. Gostaria de me ater à idealização de escolhas não realizadas que pode nos prender à melancolia e à consequente depressão.

De acordo com Valdemar Camon (2001) a melancolia se define por situações em que a pessoa sofre por aquilo que não viveu. Por isto, pessoas que vivem no presente arrependidos por escolhas não feitas e que no seu imaginário poderiam ter sido melhores do que a realidade que se apresentou diante de si, podem carregar culpa e melancolia por algo que não conseguiu concretizar e que pensa poderia ter sido melhor do que o desenrolar de sua vida.

Pessoas tendem a não viver a realidade do presente. Ou vivem na melancolia pela idealização das escolhas não realizadas, ou no que o futuro pode lhe trazer de melhor. Muitas vezes, o ser humano quer o controle total de seu destino, de sua vida, mas não conta com as imprevisibilidades,desestabilizando assim seus cálculos. As escolhas deixadas de lado, então, através da idealização, sempre parecerão que teriam sido as melhores. Isto dificulta tremendamente viver o presente com toda sua realidade. Então, ou pulamos pro passado, chorando por escolhas que fizemos e imaginando como seriam as que deixamos de fazer, ou pro futuro quando pensamos que podemos melhorar o que hoje está péssimo.

Lembro-me de uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo: Versões de mim. Onde um homem lamentava um gol que havia perdido, outro o emprego que não havia aceitado, a mulher com quem casara, no fim eles ouvem esta frase, que transcrevo, mas gostaria de consertá-la depois:

“Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você não teve, mas sim, aquilo que foi feito! Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!”

Eu diria: é melhor viver no presente, do que no passado o futuro. Embora o passado tenha sido a construção do seu presente, você deve deixar a culpa, a idealização, o arrependimento, tomar o barco na sua mão e seguir em frente tentando consertar o que pode e deixar para trás o sem jeito.

Idealizar ser alguém  e não conseguir se tornar o que gostaria, leva ao sofrimento desnecessário e lhe impede de prosseguir a vida com alegria e ânimo.

Viver para sempre no passado ou no futuro é uma tentativa de viver fora do tempo, apenas numa parte dele. O presente jamais é realizado ou plenamente vivido.

Experimentamos isto também  nos nossos relacionamentos interpessoais. Muitas vezes não somos felizes com alguém ou nos decepcionamos com ele, ou ela, porque são seres idealizados. Com o passar do tempo vemos que ela ou ele não era nada daquilo que pensamos, ou não totalmente o que imaginamos. Vem o desencanto, a desilusão e caímos na melancolia de pensar: e se tivesse escolhido fulano, ou sicrano, ou beltrana?

Tendemos a pensar no passado, imaginando somente os momentos prazerosos com alguém, ou em períodos de nossa vida: infância, adolescência, juventude (os menos neuróticos, claro, pois os neuróticos só lembram das coisas ruins), e deixamos de lado as experiências amargas, que até poderiam nos ajudar a amar nosso presente. Em vez disto, sentamos e nos  lamuriamos querendo voltar ao colo da mamãe, ou papai, ou de quem nos cuidou. Todo momento de vida alterna prazer e desprazer. Contudo, usamos recursos da idealização e esquecimento seletivo para tentar equilibrar nossa estrutura emocional.

A depressão, então surge da melancolia para nos informar que a pessoa está sofrendo e precisa de ajuda. Ela sofre por episódios que não viveu. A pessoa sente culpa,  saudade do que não viveu e se arrepende, culpa até mesmo do próprio sentimento.

O ideal, é tentarmos viver nossa realidade, melhorar o que necessita ser melhorado, vivendo o presente com responsabilidade. Projetar um futuro, mas sabendo das imprevisibilidades e estar pronto para driblá-las e enfrentá-las com sobriedade, quando necessário. Neste mundo moderno de tantas escolhas complexas, precisamos ser mais racionais, menos emocionais e saber que uma vez feita a escolha, ela pode dar certo ou não.

Esteja sempre pronto a recomeçar, reconstruir e seguir em frente, deixando tudo para trás e levando consigo somente a experiência vivida, tanto as ruins como as más, porém somente as que nos ensinem alguma coisa aproveitável para nos garantir um presente mais pleno de realidade e um futuro, pelo menos no imaginário, melhor!

 

*frase de Camon retirado do livro: Depressão e Psicossomática de Valdemar Augusto Angerami- Camon ( organizador)- Editora Pioneira, São Paulo, 2001.

Para quem se interessar, transcrevo aqui Versões de Mim de Luiz Fernando Veríssimo:

 

Versões de mim
(Luiz Fernando Veríssimo)

 

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.

Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…

 

Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:

 

– Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo

 

E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.

 

– Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?

 

– Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia.

 

– Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.

 

Olhamos para o intrometido… Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:

 

– Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.

 

– Como é que você sabe?

 

– Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me tirei… Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…

 

Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

 

– Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…

 

– E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.

 

– Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?

 

– Você…

 

– Morri com 28 anos.

 

– Bem que tínhamos notado sua palidez.

 

– Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…

 

– E ter levado o chute na cabeça…

 

– Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…

 

– Você deve estar brincando.

 

Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.

 

– Quem é você?

 

– Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

 

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As consequências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

 

– Quem é você? perguntei.

 

– Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.

 

– E..?

 

Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo…

 

Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você não teve, mas sim, aquilo que foi feito! Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!

 

 

 

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1 comentário

  • Marcelo MAn disse:

    Olá Silvia Geruza,

    Mais um de seus belíssimos artigos atuando como “…lâmpada para os meus pés, luz para o meu caminho…”.

    De fato o momento que tenho vivido é de decisões muito significativas, que afetarão muitas vidas próximas à minha. Seu texto me encorajou, e é lógico, aumentou meus medos, paradoxalmente. Mas afinal, essa é a vida.

    É bom desfrutar desse paradoxo, pois, me coloca diante de mim mesmo, e da vida como ela é.

    Grato por seu texto.

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