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Anna Karenina – entre a culpa e o prazer

 

“Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way”
“Famílias felizes são todas parecidas; toda família infeliz é infeliz de uma maneira única”.

Assim começa o livro Anna Karenina de Liev ou Leo Tolstoy. O filme tenta representar o livro, embora seja quase impossível ser fiel a 1759 páginas em uma hora e meia. Com duas personagens principais encarnando a luta entre o amor, o compromisso e a natureza humana, Tolstoy descreve Anna Karenina, uma mulher atraente, casada com um alto oficial do governo Russo, bem sucedido, pragmático, preocupado com as aparências, e Konstantin Levin, um jovem dono de terras que se apaixona por uma mocinha de 18 anos, mais parecida com um anjo do que com uma mulher e é rejeitado por causa de um oficial por quem a jovem se mostrava apaixonada.

No final das contas, o jovem oficial apaixona-se por Anna Karenina, que a princípio foge dele, mas conhece a flecha da paixão e se deixa levar por ela. Seu marido, pragmático e preocupado com a própria Anna Karenina (lembrem-se que nos meados do século XIX, na Rússia, havia divórcio, porém a mulher ficaria para sempre rejeitada pela sociedade), tenta impedi-la de sair de casa e morar com o conde Vronsky. Contudo, ela engravida do amante, deixa a filha, o filho e o marido e foge com Vronksy. Por outro lado, sua sobrinha que amava o jovem oficial, adoece pela rejeição, mas depois encontra consolo nos braços do ingênuo e doce Levin.

A história demasiadamente humana desse livro (interessei-me em ler o livro após ver o filme) retrata o drama familiar no século XIX. Os casamentos não eram por amor, embora a paixão ocorresse. Quem se apaixonasse ou falasse sobre amor era ridicularizado. Amor? risos sarcásticos: só se for ensacado.

Anna Karenina foge atrás de sua grande paixão, mas tem um alto preço a pagar. Primeiramente ela espera que Vronsky permaneça somente ao seu lado. Sedutor e frequentador de bailes e da alta sociedade, acaba perecendo diante dos constantes ciúmes da Anna Karenina, que, insegura e rejeitada totalmente pela sociedade a ponto de não poder mais ir às peças de teatro, os bailes e os locais aos quais estava habituada, não consegue esconder o medo de ser abandonada pelo único homem com quem experimentou prazer e se sentiu amada como mulher.

A culpa a perseguiu. E Seu filho? o que era dele? sua filha Anya? como estaria? Perto de morrer em uma doença repentina pediu perdão e voltou para o marido, que a recebeu de volta. Contudo, viver longe do amante era demasiadamente pesado para ela. Viver entre a culpa e o prazer em pleno século XXI ainda se constitui uma realidade.

Como afirma Zygmunt Bauman, sociólogo, autor de vários livros sobre amores líquidos, vidas líquidas, o ser humano teve que optar entre a segurança e o prazer. A segurança do comprometimento com a família, com o carinho, com a companhia sincera e rotineira dos cônjuges, e o risco de experimentar grandes aventuras e paixões. Parece-me que Leo Tolstoy ainda no século XIX contemplava o mesmo cenário.

Voltemos ao século XXI. Se o homem antigamente casava para constituir família, em recentes pesquisas ainda perdura este sentimento. O homem casa para constituir família, para ter descanso, para ter um bom sexo, a mulher por amor, paixão e para ter um companheiro ao seu lado. Porém, o homem ainda espera um casamento mais sexualizado do que a mulher.

Vamos e venhamos, estar sempre disposta para uma boa noite de sexo depois de uma tripla jornada de trabalho: emprego dois expedientes, casa para limpar, louças para lavar, meninos para ensinar a lição, pôr para dormir, etc. etc e à meia noite, morta de cansada ainda ser a amante propagada nas novelas, revistas pornográficas, filmes pornográficos, etc? Mito!

Gosto de falar para os casais quando dou palestras: Se querem uma excelente amante na cama, tratem de cuidar dos filhos e da casa antes dela chegar do trabalho. Ajudem. Aliás, esta palavra ajudar é extremamente machista: quem ajuda quem? marido e mulher que trabalham fora devem ajudar-se mutuamente nos trabalhos caseiros e com os filhos. Quem construiu a ideia de que somente a mulher tem a obrigação de cuidar da casa, dos filhos, ganhar dinheiro e o homem seria somente sua ajudante? e se mudássemos esse estereótipo? será que teríamos homens dispostos diariamente a fazer um excelente sexo?

Uma pergunta que deixo no ar é: Você acha mesmo que deixar a segurança e o conforto do lar e do carinho recebido em casa,para partir em busca de uma aventura, ou aventuras, paixões ardorosas (como Anna Karenina) realmente lhe fará feliz?

Tolstoy expõe os padrões de casamentos desesperançados da sociedade urbana. Levin e Kitty são felizes no campo. Porém, segundo o autor, casamentos baseados somente no clamor do sexo acabam enfraquecendo a busca do ser humano de uma “bondade imanente.” De acordo com Tolstoy, o casamento é um compromisso (concordo plenamente com esse conceito). A família nos ajuda a encontrarmos nossa realidade essencial. Os interesses externos e o amor da família são instrumentos que nos permitem descobrir a verdade da bondade interior.

Não contarei o desfecho do filme que é muito triste para Anna Karenina, e muito bom para Levin. Sim, é na escolha entre a emoção transitória e a razão e o acolhimento familiar que desafiamos os impasses da vida. No decorrer do livro chega-se à conclusão de que nesses impasses somente temos duas opções: ou nos comprometemos ou sucumbimos. Não há como ser feliz em cima da infelicidade de outro. Uma afirmativa constante minha que não agrada muito a muitos, mas que considero verdadeira!

 

Silvia Geruza F. Rodrigues

 

 

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