Encontro íntimo

Bem vindo!

Este é um espaço para falarmos sobre assuntos que raramente são tratados em público e que considero necessários para uma vida saudável e alegre. Espero que você seja edificado e também se divirta!
Obrigada por sua visita!

Home . Artigos . Família . Com você o mundo desaparece

Artigos

Com você o mundo desaparece

Inevitavelmente os relacionamentos se transformam com o passar do tempo, porém, por influência da mídia o que repousa na nossa mente é a ideia de um relacionamento eternamente no primeiro estágio da paixão, do encontro leve, sem compromisso, sem satisfações a dar. O relacionamento ideal começa despretensioso, sem imposições de responsabilidades, sem tentativa de mudar o outro, com uma confiança mútua, desejo de estar sempre juntos.

Parece que o mundo desaparece ao seu redor, como diz uma música da cantora Ana Carolina: “Você me beija e o mundo todo desaparece” (algo assim). Por onde anda o resto do mundo quando estou com alguém que amo? Como afirma a escritora Anne Lindbergh (2009) no seu livro Presente do Mar : “No início todo relacionamento parece simples (…) Duas pessoas que se escutam, duas conchas que se encontram, criando um mundo ao seu redor. Nada mais existe na união perfeita desse momento – nenhuma outra pessoa, ou coisa, ou interesse” (p.56).

No casamento, ou no relacionamento de longa duração, tudo se transforma. Não necessariamente para algo ruim, mas torna-se necessário saber que o relacionamento não continuará simples, sem vínculo, sem cobranças e não se restringirá aos dois. Uma das maiores dificuldades que um casal enfrenta é a não aceitação destas mudanças naturais ao próprio crescimento e à maturidade do amor, como explico em meu livro Amor Romântico: Isto Existe? (2010- ed. Fonte Editorial).

Jean Yves Leloup explica muito bem as transformações do amor que ascende de um amor de necessidade, simbiótico, devorador, a um amor companheiro, cúmplice (isto você pode ler mais detalhadamente no livro Amor Romântico: Isto existe?). Sabe-se que não se pode manter o amor romântico por muito tempo, a paixão devoradora, egoísta, asfixiante, que estonteia, dispara o coração, rouba a atenção, o foco, impede de trabalhar por horas em devaneio. Nem o coração aguentaria, nem a sociedade e o mercado de trabalho. Apaixonados são contraproducentes. Embora a paixão seja necessária, ela precisa amadurecer para outros estágios do amor. Quando seu tempo passa ( e geralmente é de dois a dois anos e meio de duração) ou o relacionamento perece, ou ela se transforma em um amor mais compreensivo dos defeitos do outro, um amor mais abnegado, mais perdoador, mais companheiro, mais parceiro.

Uma música cantada por Marisa Monte demonstra muito bem o que pode acontecer em relacionamentos quando a paixão desvanece:

Este pode ser o relato triste de um relacionamento que teve começo, meio e fim. Realmente, se o casal não tomar os cuidados necessários, quando a paixão arrefece, os caminhos podem deixar de se cruzar, cada um cuidando de sua própria vida e o esquecimento das promessas de amor feitas no início do relacionamento, das juras, dos planos para o futuro a dois e “as pequenas raposas” como diz o livro dos Cânticos, podem aos poucos arruinar a videira dos dois.

A metade para o fim desta música é muito triste. Uma mulher se arrastando por um homem que não se preocupa com seus sentimentos, seus questionamentos. Quantas mulheres conheço que se arrastam literalmente implorando ao seu homem para não abandoná-las, para dizer por onde andavam altas horas da noite, ou cedo da madrugada, sem respostas.

Creio que quando alguém precisa perguntar ao outro: “você me ama?” é sinal que o outro não está sinalizando o suficiente. Um alerta precisa ser levantado neste relacionamento. Conta-se que um nordestino “arretado” estava vendo um filme com a esposa e enquanto o casal na tela confessava amor um ao outro, a esposa virou-se para ele e perguntou: “amor, você ainda me ama?” ao que ele respondeu com aquele tom bem machista: “Mulher, eu falei que te amava há 34 anos no altar, se tivesse mudado de ideia eu já teria te dito”. Sintomático, não?

Homem, a mulher precisa ouvir. O amor para a mulher é verbalizado, não pragmático. Se para o homem é fazer compras, estar com ela nos momentos difíceis, trazer comida e bebida para dentro de casa, trabalhar para ser o provedor (isto já mudou muito nos dias atuais, muitas mulheres são as provedoras enquanto o marido não consegue trazer o suficiente para casa), para a mulher isso não é o suficiente para ter certeza do amor do homem. Ela precisa do romantismo, das palavras floreadas do início do relacionamento, da verbalização, como também da ação.

Como deve ser triste ouvir essas frases:

“Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos histórias
Pra ficar na memória
E nos acompanhar”

Por quê deixar passar o seu tempo? Por quê não cultivar esses bons momentos na memória e construir novos bons momentos? Nesta mesma música algo me chama a atenção. Ela deseja ao homem felicidade e propõe que se separem para ninguém trair mais ninguém.

Será que antes de chegar a este ponto o casal não poderia conversar e ver o que os está afastando? Será que o casal não deveria ter a coragem de enfrentar o fato de que estão seguindo caminhos diferentes e decidir se é isso mesmo que desejam para seu relacionamento? Claro que quando não há filhos é bem mais fácil tomar decisões que envolvem somente os dois, mas…e os filhos? Como ficam nesta luta a dois? Muitos são colocados no meio como um cabo de guerra para que vença o mais forte na persuasão. Porém não cabe aqui falar de um casal que se separa, ainda nos encontramos na fase do amadurecimento do amor, do cuidado para que não se esvaia, da aceitação de que o relacionamento se transforma, e não necessariamente para pior, mas para um amadurecimento e atingir a leveza que antes de se unirem este relacionamento apresentava (ou deveria ter apresentado).

Na busca desenfreada do amor o ser humano pode se perder. Perco-me para encontrar o outro. Contudo, esta atitude é danosa. Deve ser o contrário. Você precisa se encontrar primeiro antes de querer encontrar o outro. Somente uma pessoa inteira consegue se envolver inteiramente em um relacionamento. Discordo do conceito de encontrar a cara metade. Se você espera se completar no outro, ou que o outro lhe traga felicidade, você estará entrando num relacionamento com as premissas erradas. Quando dois inteiros se encontram, aí sim reside uma grande chance deste relacionamento frutificar.

O momento único do apaixonamento é necessário, embora seja por um tempo, não elimina o fato de que é bom e saudável experimentá-lo. Contudo, precisamos saber que o mundo lá fora espera o casal. O psicólogo Erich Fromm em seu livro A Arte de Amar declara que um relacionamento a dois que exclui os outros não é amor e sim um egoísmo ampliado. Queremos o outro como projeção do nosso eu. Não amamos o outro e sim a projeção de nós mesmos, e quando queremos este outro somente para nós e não desejamos compartilhá-lo com mais ninguém ao nosso redor, estamos simplesmente nos amando. O amor precisa ser ampliado, dar liberdade, mas também precisa ser cultivado.

Outra ilusão que a música nos traz é de que quando há um rompimento, o outro é altruísta o suficiente para desejar a felicidade de alguém que você já amou e ama, longe de você.

Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também

Um rompimento é sempre um rompimento. Uma ruptura nunca se concretiza sem sofrimento, sem iras, ódio, vontade de esganar o outro. Sejamos realistas. Somente alguém que quer se livrar do peso do outro age “altruisticamente”- “quero que você seja feliz com outro alguém” – Quando se ama o outro, por mais belo que seja seu coração, você quer que ele seja feliz com você, e você lutará com todas as forças para que isto aconteça.

Quando falo que o amor romântico é também uma construção social através das músicas, das telenovelas, dos livros de romance, o outro lado da moeda também é verdadeiro. Ouvimos certas músicas e as achamos bonitas, mas se analisarmos suas falas veremos que não são verídicas. Em um rompimento o que verificamos são casais brigando pelos bens, pelos filhos, pela guarda e alguns até afastando os filhos do outro por vingança (alienação parental). Infelizmente, isto só resulta em uma ferida emocional nos filhos. Egoisticamente o casal pensa somente em si e esquece que para os filhos terem saúde emocional precisariam se separar “civilizadamente” sem envolver os filhos nesta briga com chantagem emocional, exigindo que tomem partido, desfigurando a imagem saudável que têm dos pais.

O relacionamento a dois pode ser alegre, leve e duradouro quando aceitamos suas transformações e amadurecemos com elas. Para isso, o casal precisa conversar, cultivar momentos a sós, preocupar-se com o sentimento e as emoções um do outro, de vez em quando se isolar do mundo para cultivar aqueles momentos deliciosos que experimentavam quando ainda se encontravam no início do conhecimento mútuo.

Não se engane, você precisa continuar tentando descobrir e conhecer mais seu parceiro ou parceira, por mais tempo que estejam juntos, pois a cada dia, a cada circunstância, os dois mudam e continuam sendo um enigma um para o outro. Tente sempre decifrar este enigma e seu relacionamento poderá ser duradouro e alegre.

 
Silvia Geruza F. Rodrigues

Compartilhe

Deixe seu comentário