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Quando alguém está pronto para casar?

Allain de Botton
(filósofo suíço)

Geralmente quando alguém alcançava alguns objetivos financeiros e sociais: ter uma casa própria, algumas qualificações profissionais e algumas vacas e um pedaço de terra, era sinal de que já podia se casar.

Mas, o ideal romântico influenciou a mentalidade atual e aquilo tudo parecia muito mercenário e calculado, o foco mudou para as emoções. Tornou-se importante “sentir” da maneira certa. O sinal de uma boa união era o sentir-se bem. E os sentimentos certos incluíam um sentido de que o outro era “o certo”, que lhe entendia perfeitamente e que ambos nunca teriam o desejo de dormir com mais ninguém, a não ser com o escolhido, ou a escolhida.

Estas ideias, embora tocantes, já se provaram ser quase uma receita certa para uma eventual dissolução de casamentos – e têm causado um desastre nas vidas emocionais de milhões de pessoas e de casais bem intencionados.

Como um corretivo dessas ideias, proponho um conjunto de princípios bem diferentes e mais clássicos que indicam quando duas pessoas deveriam se considerar adequadas para se casarem.

Estamos prontos para casar…

 

1. Quando desistirmos de perfeição.

Não somente devemos admitir de maneira geral de que a pessoa com quem estamos nos casando está muito longe da perfeição, como também devemos conhecer as imperfeições dela: como ela será irritante, difícil, às vezes irracional, e na maioria das vezes incapaz de nos entender ou ser empático conosco. Os votos deveriam ser reescritos para incluir esta linha:

“Concordo em me casar com esta pessoa, embora ela, regularmente, me levará à distração. Contudo, esses defeitos nunca deveriam ser interpretados como meramente capturando um problema individual. Ninguém mais faria melhor. Somos ruins assim mesmo. Somos uma espécie cheia de defeitos. Com quem quer que você se una será imperfeita de muitas maneiras. Devemos matar terminantemente a ideia de que as coisas seriam ideais com outra criatura nesta galáxia. Somente pode haver um casamento bonzinho o suficiente”.

Para entender isso, ajuda ter alguns relacionamentos antes de casar, não para ter a chance de encontrar a pessoa certa, mas para ter uma ampla oportunidade de descobrir de primeira mão, em muitos contextos diferentes, a verdade de que todos (mesmo os que se mostram os prospectos mais empolgantes) na verdade têm alguma coisa de errado.

 

2. Quando perdemos a esperança de sermos compreendidos.

O amor começa com a experiência de sermos compreendidos de uma maneira compreensiva e profundamente extraordinária. O outro entende suas partes solitárias; você não precisa explicar porquê acha uma piada tão engraçada; vocês odeiam as mesmas pessoas; o outro também quer experimentar um cenário sexual diferente.

Mas, isto não continuará. Outro voto deveria ser: “Embora o outro pareça me compreender muito, sempre haverá largos traços do meu psique que permanecerão incompreensíveis para ele (ela), para todos e até mesmo para mim”.

Por isso, não deveríamos culpar nossos amantes por falhar em os compreender e não conseguir apreender nossos movimentos internos. Não é que sejam inadequados, ou incapazes. Eles simplesmente não conseguiram entender quem éramos e o que precisávamos – o que é completamente normal. Ninguém consegue entender adequadamente e nem ser sensível completamente ao o que o outro sente.

 

3. Quando nos conscientizarmos de que somos loucos.

Isso é profundamente contrário à intuição. Parecemos tão normais, e na maioria das vezes tão bons. São os outros…

Porém, atingimos a maturidade quando nos apercebemos de nossa loucura. Geralmente ficamos descontrolados por muito tempo, falhamos em aceitar o nosso passado; nossos projetos são muitas vezes impossíveis de ser concretizados e às vezes somos ansiosos demais, para sermos mais gentis com as palavras: geralmente agimos como idiotas.

Se não ficarmos normal e profundamente envergonhados de quem somos, será porque desenvolvemos uma capacidade perigosa de uma memória seletiva.

 

4. Quando estivermos prontos para amar em vez de ser amados.

Geralmente, falamos de “amor”como uma coisa, em vez de discernir as duas variedades que existem em uma só palavra: ser amado e amar. Deveríamos nos casar somente quando estivéssemos prontos para amar e estivéssemos conscientes da nossa fixação imatura e anti natural de ser amados.

Começamos a aprender somente sobre “ser amado”. Parece – muito erroneamente – que é a norma. A criança acha que os pais estão simples e espontaneamente à mão para sempre guiar, entreter, alimentar, limpar e são sempre alegres e calorosos. Os pais não mostram quão frequentemente eles têm mordido a língua, escondido as lágrimas e estiveram cansados demais para tirar as roupas depois de um dia cuidando dos filhos. O relacionamento é quase que inteiramente não – recíproco. Os pais amam, mas não esperam o favor de serem retribuídos de alguma maneira. Os pais não ficam chateados quando a criança não nota o novo estilo de corte de cabelo, perguntou cuidadosamente como foi a reunião no trabalho ou sugeriu que iriam subir para tirar uma soneca. Pais e filhos podem até‘amar’, mas cada um se encontra num eixo bem diferente, desconhecido pela criança.

É por isso que ao alcançar a idade adulta, quando dizemos que ansiamos por amor, o que queremos dizer é que “desejamos” ser amados como nossos pais nos amaram. Queremos um entretenimento na idade adulta parecido com a que recebíamos quando pequenos. Em algum lugar secreto de nossas mentes, imaginamos alguém que compreenderá nossas necessidades, trará tudo que queremos, será imensamente paciente e sensível, agirá altruísticamente e fará tudo melhorar.

Naturalmente, isto é um desastre. Para um casamento funcionar, precisamos sair completamente do estágio de criança e assumir uma posição parental. Precisamos nos tornar alguém que desejará submeter suas próprias necessidades e seus cuidados às necessidades do outro.

Ainda há outra lição a ser aprendida. Quando uma criança diz aos seus pais “Eu te odeio”, eles não ficam mudos, chocados ou ameaçam sair de casa e nunca mais voltar, porque sabem que a criança não está dando um relatório de uma investigação pacientemente pensada ao estado do relacionamento. A causa destas palavras podem ser fome, a perda de um pedaço essencial do seu Lego, o fato de que ficou em casa enquanto os pais foram a uma festa na noite anterior e não a deixaram jogar videogame, ou que está com dor de ouvido…

Os pais se tornam peritos em entender o que a criança quer dizer e não ouvirem as palavras literais. Ela pode estar querendo expressar: ‘Estou sozinho, está doendo, estou com medo’- uma perturbação que se expressa como um ataque à coisa mais segura e delicada no mundo da criança: os pais. Achamos muito difícil fazer este movimento com nossos parceiros: ouvir o que eles realmente querem dizer, em vez de responder (furiosamente) ao que eles estão dizendo.

Um terceiro voto deveria ser: “Sempre que tiver a força, imitarei aqueles que uma vez me amaram e tomaram conta do meu parceiro como se estivessem tomando conta de mim. A tarefa não é injusta ou uma ruptura da verdadeira natureza do amor, e sim o único tipo de amor que faz jus a esta palavra”.

 

5. Quando estamos prontos para administrar.

A pessoa romântica instintivamente vê o casamento em termos de emoções. Contudo, o que um casal realmente está para fazer são tarefas de um pequeno negócio. Eles devem traçar planejamentos, limpar, dirigir, cozinhar, consertar, jogar fora, se preocupar, contratar, despedir, reconciliar e fazer um orçamento.

Nenhuma dessas atividades tem qualquer glamour dentro deste atual arranjo da sociedade. Aqueles que são obrigados a fazer isso não gostam disso e sentem que alguma coisa está errada com suas vidas por terem que se envolver tanto com essas tarefas. Mas, elas constituem no que é realmente romântico no sentido de que conduzem e sustentam o amor, e deveriam ser interpretadas como a base de um casamento bem sucedido e honradas tanto quanto outras atividades na sociedade tais como, escalar uma montanha ou corrida de carro.

Um voto principal deveria ser: “Aceito a dignidade da tábua de passar”.

 

6. Quando entendermos que sexo e amor nem sempre estarão juntos.

A visão romântica espera que o amor e o sexo caminhem sempre lado a lado. Mas, na verdade eles não permanecerão juntos além de alguns meses, ou no máximo um ou dois anos, porque o casamento tem outras preocupações mais importantes (companheirismo, administração, outra geração) que fazem com que o sexo sofra. Estamos prontos para casar quando aceitamos a renúncia do sexo e a tarefa da sublimação. Ambos devem evitar pensar que o casamento revolve ao redor do sexo. Eles também devem se programar para algo que pode acontecer com eles: que um ou outro terá casos. Alguém só está adequadamente pronto para o casamento quando ambos souberem reagir maduramente à traição.

A visão imatura e inexperiente da traição pensa assim: o sexo não tem que fazer parte do amor. Sexo pode ser rápido e sem significado, como jogar tênis. Duas pessoas não devem tentar possuir o corpo uma da outra. É só um pouquinho de diversão. Então, o parceiro do outro não deve se importar tanto.

Porém, pensar assim é ignorar voluntariamente os elementos básicos da natureza humana. Ninguém pode ser vítima do adultério e não se sentir carente e cortado no centro do seu ser. Esta pessoa nunca mais será a mesma. Isso não faz sentido, é claro, mas não é este o ponto. Muitas coisas sobre nós fazem pouco sentido – mas mesmo assim merecem ser respeitadas. O adúltero tem que estar preparado para honrar e perdoar a extrema capacidade do seu parceiro de sentir ciúmes, e deve o máximo possível resistir à necessidade de fazer sexo com outras pessoas, tomar todas as medidas possíveis para evitar que o parceiro (ou a parceira) descubra, se isto acontecer, e deve reagir com delicadeza e paciência extraordinárias se a verdade vier à tona. O traidor, acima de tudo, nunca deve tentar persuadir seu parceiro (sua parceira) de que não é certo ter ciúmes ou de que o ciúme não é natural, que é “ruim” ou uma construção burguesa.

Por outro lado, quem casa deve se preparar para a traição. Isto é, deve-se fazer um esforço tremendo para tentar entender o que deve passar pela mente do seu parceiro (sua parceira), quando ele (a) fizer sexo com outra pessoa. Muitas vezes se pensa que não há outra opção, mas que o parceiro voluntariamente está tentando lhe humilhar e que o amor deles se evaporou de repente. O mais provável é que o parceiro (a parceira) somente quis ter um sexo diferente, e esta verdade é mais difícil de acreditar do que aprender Mandarim ou tocar percussão, por isso requer muita prática.

Só se está pronto para casar quando duas coisas muito difíceis estão no lugar: alguém esta pronto a acreditar na capacidade genuína do parceiro (a) de separar amor do sexo. E ao mesmo tempo, quando alguém está pronto a acreditar na incapacidade teimosa do parceiro (parceira) de manter o amor e o sexo separados.

Os dois precisam dominar as duas atitudes, porque eles podem – no curso da vida – ser chamados a ter ambas as capacidades. Isto, em vez de um voto de que nunca farão sexo com outro ser humano – deveria ser um teste relevante para poder se casar.

 

7. Quando estamos felizes em ser ensinados e calmos para ensinar.

Estamos prontos para casar quando aceitamos que em algumas áreas muito relevantes nossos parceiros serão mais sábios, mais sensatos e mais maduros do que nós. Devemos querer aprender deles, como também estar dispostos a receber críticas. Deveríamos, em momentos importantes, vê-los como professores e nos colocarmos no lugar de aprendizes. Ao mesmo tempo, devemos nos preparar para ensiná-los certas coisas, e como bons professores, não devemos nos descontrolar ou simplesmente esperar que eles saibam de tudo. O casamento deveria ser reconhecido como um processo de ensino mútuo.

 

8. Quando entendermos que não somos compatíveis.

A visão romântica do casamento enfatiza que “a pessoa certa” é alguém que compartilha dos mesmos gostos, interesses e atitudes gerais em relação à vida. Todavia, com o passar do tempo, esta relevância diminui dramaticamente, porque as diferenças inevitavelmente virão à tona. A pessoa que dá mais certo conosco não é aquela que divide os mesmos gostos, mas aquela com quem podemos negociar as diferenças com inteligência e sabedoria.

Em vez de uma ideia de uma complementaridade perfeita, a capacidade de tolerar a diferença é o que torna a pessoa “certa” para nós. Compatibilidade é uma conquista do amor, não uma precondição.

 

Conclusão

Achamos que é verdadeiramente uma boa ideia assistir a algumas aulas sobre ter filhos. Tem sido a regra para todas as pessoas de nações bem desenvolvidas. Mas, ainda não se aderiu à ideia de ter aulas antes de casar. Vemos o resultado disso por toda parte.

Chegou a hora de enterrar a visão do casamento baseado na intuição e aprender a praticar e a ensaiar o casamento da mesma maneira que se pratica patinar no gelo ou tocar violino, pois ele é tão complexo e digno de períodos sistemáticos de instrução quanto essas atividades.

Por agora, enquanto a infra estrutura de novos votos e aulas é formada, todos nós merecemos condolências por nossas lutas. Estamos tentando fazer algo extremamente difícil sem o mínimo de suporte necessário. Não é de surpreender se – muito frequentemente – tivermos problemas.

 

 

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4 comentários

  • adriana silva disse:

    Olá gostei muito da matériame foi muito utíl.
    mas preciso de uma orientação, estou namorando,e estou confusa ele quer se casar, faz tudo por mim, mas me sinto ensegura em questão de meus sentimentos por ele, as vez o quero por perto e as vezes bem longe pois gosto de liberdade, não consigo ser controlada por outra pessoa,que faço,o amor é um sentimento? ou uma decisão? me ajude por favor.

    • Silvia Geruza disse:

      amor é um sentimento, mas casar é uma decisão. Quando se casa precisa-se optar mesmo entre a liberdade de fazer tudo que quer e gosta e ter a responsabilidade de prestar contas dos seus atos ao outro. Porém, quando se casa com uma pessoa segura e cada um sabe dos seus limites, há liberdade e alegria. O bom relacionamento é feito de amor, renúncia, perdão e responsabilidade pelo bem estar um do outro.

  • Fernanda disse:

    Não entendi muito bem a questão do e sexo estar separado em um casamento. Significa aceitar que o(a) parceiro(a) poderá se relacionar sexualmente cm outra e devemos aceitar e mais, se preparar para uma traição?

    • Silvia Geruza disse:

      Não, simplesmente entender que muitas vezes, quando se trai, segundo o autor do texto, não necessariamente é porque ama o amante, e sim a ou o desejou. Porém, na minha opinião pessoal, é para isso que o ser humano tem razão, para controlar seus instintos.

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