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Selfie – selfish – Adeus liberdade, adeus privacidade

celular no braço

Selfie – selfish – seashell – Adeus liberdade, adeus privacidade.

Silvia Geruza F. Rodrigues

Há pouco tempo, uma das maiores preocupações dos pais e da sociedade em geral era os jogos de video-game. Jovens e adolescentes viciados em video games, trancados em seus quartos horas a fio, prejudicando-se nas notas escolares e na comunicação familiar. Os amigos tornaram-se aqueles com quem jogavam e, diga-se de passagem, a maioria dos jogos inclui procurar inimigos e eliminá-los, incitando à violência.

O celular, por sua vez, entrou sorrateiramente na vida de todos. Crianças, jovens, adultos, famílias inteiras, e casais. Raro entrar em um restaurante e não ver todas as pessoas ao redor da mesa com um celular ligado nas mãos, rindo não umas com as outras, mas com os torpedos e mensagens que lêem nos seus respectivos aparelhos móveis. Uma visão usual também é de crianças de colo, inclusive, com ipads colocados em pé na mesa com um aparador próprio para isso, vendo programas pré-gravados para que os pais, por sua vez, em vez de comer em paz, mexerem também em seus respectivos celulares.

Acidentes de carro relatados por causa do uso do celular. Existem pessoas que enviam e lêem mensagens no celular, mesmo dirigindo. Na academia, fazendo musculação, correndo no parque, pedalando, que deveria ser uma atividade para trazer saúde ao corpo e descanso à mente, o celular não pára. O mais irritante é em um restaurante a pessoa falar no celular, como se fosse longa distância de antigamente que você precisava gritar para ser ouvido, e você ter que ouvir a conversa íntima, ou briga, ou negociação de quem está falando na hora das refeições.

Nos aeroportos, homens de negócios esbravejando com funcionários do outro lado do país, mas em tom de voz que se ouve do outro lado da esquina, também. Mulheres seduzindo namorados, fazendo beicinho. Crianças chorando enquanto os pais desligadamente riem ao ler mensagens ou ouvir comédias stand up no youtube.

Dentro dos aviões, não se vê mais pessoas lendo para passar o tempo, nem na praia, em lugar nenhum. Celular chegou de vez e invadiu a vida de todos. Não precisamos nem nos perguntar se a comunicação intrafamiliar piorou ou caiu ralo abaixo. Sim, claro que sim. As refeições serviam de ponto de encontro das famílias para conversarem, colocar as notícias em dia. Hoje, trocou-se a comunicação verbal na vida real pela virtual. Está provado que viver virtualmente é bem melhor do que a vida real em família ou no casamento. Claro! Antigamente dizíamos que papel aguentava tudo. Hoje afirmamos que tela aguenta tudo. O mundo digital fabrica fotos lindas com photoshop; com montagens, filtros; sem contar que podemos inventar outro perfil de quem realmente somos. Nos encontros as decepções vêm aos bordões. Você não sabia o tom de voz da pessoa, nem a química do seu corpo, seus dentes, seus olhos, etc.

Recentemente em um país Tcheco, um casal se divorciou porque os dois eram amantes virtualmente e quando foram se encontrar descobriram que eram marido e mulher. O esposo declarou no jornal que nunca poderia imaginar que a pessoa que lhe dizia tantas palavras doces e ternas por mensagens e emails, seria aquela megera com quem casara há 8 anos e nunca lhe pronunciara nada de agradável. Bem que falo: a tela aguenta tudo. Quero ver é no roçar de ombros, no cotidiano, na maneira que ele ou ela trata o garçom, comporta-se no trânsito, ou até mesmo na cama. Dizer o que faria um com o outro em textos “calientes” e sensuais é fácil. Difícil é ir para a cama pela primeira vez e notar que aquela mulher leva horas para chegar ao orgasmo e que ele é um ogro no tato ao fazer sexo. Tudo parecia tão fácil com as palavras…

Sem contar com a falta de privacidade. O narcisismo exibido nos selfies da vida: caras e bocas expostas nas redes sociais. O egoísmo: frases pré-prontas que eliminam o direito dos “amigos” de sentirem tristeza.  Frases de auto-ajuda tais como: “Você pode deixar a tristeza para trás. “‘Você já é um vencedor, basta por o passado em seu devido lugar.” “Tudo você pode, basta acreditar.”  e aquela pessoa que há anos luta com alguma deficiência que lhe limita em todas as esferas da vida. Os tristes, aflitos, abandonados por todos, terem que ler e sofrer mais ainda ao ver que já tentaram, mas não bastou colocar um sorriso na face para poder todas as coisas. Sem contar com as fotos de pratos de restaurantes bonitos, belamente preparados que as pessoas fazem questão de mostrar. E se, o seu “amigo” da rede virtual naquele momento que contemplou sua foto comendo aquela lagosta au termidor estiver juntando os centavos para comprar um litro de leite para seu filho?

Pelas fotos batidas com o celular e postadas nas redes sociais, sabemos exatamente onde a pessoa se encontra e a companhia ao torcer na copa. A cada gol uma foto postada, a cada intervalo uma frase pelo zapzap, é como se o celular fizesse parte da pessoa. Está embrionado nela. “Não posso ser feliz se não me mostrar, ou mostrar aos outros os mínimos detalhes do que estou fazendo”, parece pensar o viciado em celular.

Com a falta de privacidade, também vem a falta de liberdade. “Eu posso fazer o que quiser na minha vida privada.”  Mas, meu querido, minha querida, de que vida privada você está falando mesmo?  Porque seus “amigos” virtuais sabem que vinho você gosta, que marca de cerveja você curte, que praia você mais frequenta. Onde você está agora mesmo, se no restaurante x ou y, igreja x ou z, na balada, em casa com jantar em família ( e o mundo inteiro para quem você anunciou nas redes sociais). Liberdade? Privacidade? Adeus. O que importa mesmo é minha face sempre sorridente ao lado de gente alegre e bonita nas fotos postadas nas redes sociais.

O que importa saber se meu filho ou minha filha está triste e precisa conversar? E se meu marido ou minha mulher encontra-se carente de TLC ( tender living care- amor ternura e cuidado) ? Comunicação em família? Adeus. Sair para uma noite a dois?  Grande ilusão, seu jantar não é a dois, é a mil, dois mil, o mundo inteiro tem sua foto com sua namorada, noiva, etc. Vocês não saíram para conversar e trocar juras de amor. As juras de amor e confissões são pelas redes sociais, mesmo que seu parceiro ou sua parceira não consiga entrar nelas. “O que eu quero mesmo é sair da minha concha e mostrar ao mundo ( falsamente) quão feliz consigo ser”. Só que não. Pobres infelizes viciados no celular.

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