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Utopia vs Realidade- Aleksiei Aleksándrovitch (O outro lado da moeda)

E a saga continua. Se ao lermos Anna Kariênina  nos chocamos com o fato dela ter escolhido abandonar a família para seguir um jovem impetuoso e viver uma louca paixão que lhe deu uma vida incerta, rejeitada, repleta de culpa e um fim trágico.

Por outro lado, ao analisarmos a personagem do seu marido Aleksiei Aleksándrovich, um alto oficial do governo, rígido, disciplinado e que prezava sua família, mas como algo de sua posse, não como humanos, talvez até déssemos razão à Anna Karenina por ter se envolvido com alguém que lhe oferecia vida. Mas, sejamos neutros enquanto analisamos Aleksiei, ou o seu personagem como descrito por Tolstoy.

Obviamente que Aleksiei dedicava-se muito ao seu trabalho, suas ideias, seus projetos governamentais para ajudar seu país. Contudo, como descreve o próprio Tolstoy ele vivia no mundo do idealismo, da utopia.

“Aleksiei Aleksándrovitch estava face a face com a vida, diante da possibilidade do amor de sua mulher por alguém que não ele, e isso lhe parecia muito incoerente e incompreensível, porque era a vida real. Aleksiei Aleksándrovitch passara toda a sua existência a trabalhar nas esferas da administração  pública, onde só lidava com os reflexos da vida. Toda vez que esbarrava com a vida real, ele a rechaçava.” (p. 151)

Isto mostra um problema, aqui ocorrido no século XIX, mas bem presente nos relacionamentos do século XXI. Quantos homens não vivem como avestruzes, só que suas cabeças não são enterradas no chão, mas no trabalho. Provavelmente envolvidos com seus projetos, sonhos de como libertar a humanidade, sua empresa ou seu país, e esquecem de viver a vida real enfrentando seus dilemas e problemas conjugais e familiares. Talvez como mecanismo de defesa eles fogem para se esconder no ativismo.

“Pela primeira vez, concebeu com clareza a vida pessoal da sua esposa, seus pensamentos, seus desejos, e a ideia de que ela podia e devia ter uma vida própria lhe pareceu tão assustadora que tratou de rechaça-la às pressas.” (p.152)

Sempre que Anna queria conversar, seu marido lhe respondia laconicamente: hora de dormir. E assim evitavam falar dos seus sentimentos, do seu relacionamento, da vida.

Ao longo dos séculos, para o homem, a mulher não passava de uma decoração, um objeto, que ele usava para procriar, mostrar para a sociedade e constituir família. Por isto que o passo da sua esposa lhe parecia estranho. De repente descobriu que ela podia ser um ser humano, e isto o assustava.

“Transferir-se para os pensamentos e os sentimentos de outra pessoa era um exercício espiritual alheio a Aleksiei Aleksándrovich.  Julgava esse exercício espiritual uma fantasia nociva e perigosa”. (p.152)

Falar com sua esposa com o que notara tornara-se para ele ter que abordar assunto tão “insignificante”. Sim, porque os que ele tratava no governo eram tão mais macro, mais importantes, salvariam não uma família, mas o bem estar de toda uma nação.

Tolstoy retrata um drama familiar de forma excepcional. Um homem rígido, imerso na busca dos seus sonhos, com uma esposa e um filho que completam sua imagem perante a sociedade, sem nunca imaginar que ela pudesse tornar-se uma pessoa com vontade própria, sentimentos e voltar-se para outro homem.

Uma mulher em casa, insatisfeita, precisando de carinho, amor, afeto, atenção que se vê engodada pela presença altiva, porém afetuosa de outro homem que também não mede esforços para seduzi-la.

Contudo, poderia esta mulher e aquele homem serem felizes? Aleksiei um dia a aceita de volta. Afinal de contas, sua imagem precisaria ser preservada perante a sociedade.

A paixão vencera.  Aleksiei conseguiu aprovar seus projetos, a Rússia estaria salva. Um bom cidadão esse Aleksiei. Mas, seu casamento sucumbira. Como muitos o fazem pela falta de atenção, cuidado, diálogo e principalmente, empatia.

Existe um verso na Bíblia muito verdadeiro, que poderia se aplicar a esta história: De que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder sua alma? Sua vida???”

Eu responderia: não muito. Não muito.

 

 Silvia Geruza F. Rodrigues

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