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50 Tons de Cinza – Obra erótica ou pornográfica? Por quê tanta polêmica?

 

Escrevo este artigo sabendo que será polêmico, principalmente entre os evangélicos e cristãos. Contudo, como especialista em sexualidade humana, terapeuta de casal e de família, cristã, com mestrado em Ciências da Religião com dissertação sobre o tema sexualidade e o discurso evangélico, não consigo me conter ao ler e ouvir tanta distorção sobre a obra de E. L. James: 50 Tons de cinza.

Fifty Shades of Grey- Cinquenta tons de Grey . Christian Grey é o personagem principal, e em Português fez-se um trocadilho com o nome dele que soa “gray”, que significa Cinza. A trilogia se denomina: O primeiro livro, 50 Tons de Cinza, o segundo 50 Tons mais Escuros, e o terceiro 50 Tons de Liberdade, quando o personagem principal finalmente é curado de seu sadismo pelo amor da jovem inexperiente e apaixonada Anastasia Steele.

Se você ainda não leu a trilogia, estragarei a surpresa, porque sei que se apesar de tanta polêmica você ainda não a leu, não mais o fará. Pois bem, Christian é realmente sadista, aparentemente porque foi iniciado neste mundo aos 15 anos pela melhor amiga da sua mãe, uma mulher muito rica e poderosa que ainda é sua sócia em vários negócios. Quando  muito novo fora vítima de violência doméstica, sendo constantemente queimado por seu padrasto. Christian Grey se configura no livro um homem, realmente repleto de problemas emocionais.

Contudo, ao longo da trilogia, ele vai sendo transformado, torna-se romântico e apaixonado pela jovem Anastasia Steele, com quem se casa, e surpresa: até tem filhos. O livro três ainda mostra a angústia, que quase todo homem passa, ao saber que vai ser pai. Enfim, uma história que esconde muitos dramas, perseguição de rivais, abandono de velhas práticas, muito sexo, erotismo e muito amor.

O livro vendeu mais de 100 milhões de cópias, e seu filme arrecadou mais de 500 milhões de dólares. Um alvoroço em todo o mundo. Os artigos que li sobre a trilogia, até agora, têm constantemente confundido erotismo com pornografia. Começam o artigo sobre o livro e, muitos deles, obviamente não leram os três da obra, permanecendo presos somente ao primeiro livro onde a personagem Anastasia Steele ainda nem confirma se assinará o tal do contrato de ser dominada por Christian Grey. Aliás, o filme termina ela dizendo para ele que não é a mulher que ele procura porque não quer assumir tal relacionamento.

Primeiro, vejamos que a obra é constantemente chamada de pornográfica e acusada de incentivar a pornografia. Pornografia difere de erotismo. Segundo o psicólogo Jean Yves Leloup o amor ascende do menor para o maior sentimento. Primeiro vem a libido ( o amor por instinto), depois a paixão e finalmente a compaixão ( vide mais sobre as nuances do amor no meu livro : Amor romântico: Isto existe? Editoras doxa e fonte editorial.). O amor “porneia” , portanto , seria a primeira etapa do amor, voraz e devorador. O amor do bebê por sua mãe, por exemplo, o amor de consumo. Amo o outro, portanto devoro-o. Para crescermos temos a necessidade de nos nutrimos um do outro. Este é o amor mais primitivo, que surge e deve crescer. Da palavra grega porneia, veio a palavra pornografia, porém erotismo não necessariamente significa pornografia.

O fato do consumo de brinquinhos eróticos ter aumentado, segundo dizem, nas lojas chamadas de sex shop, não significa necessariamente o consumo de pornografia. Brinquedos e vibradores não se constituem em pornografia, e sim acessórios que podem ajudar na relação sexual a se obter mais prazer.

A diferença entre erotismo e pornografia é tênue. O erotismo geralmente é mencionado como uma forma mais nobre da sensualidade, um sexo implícito, que até pode envolver romantismo. Pornografia direciona-se mais ao sexo explícito, talvez a forma mais vulgar do erotismo.

Quando falamos aqui de sensualidade, não excluímos o fato de que a pornografia realmente pode ser viciante e trazer males ao ser humano ou ao relacionamento. Muitos problemas surgem com pessoas que recorrem a vídeos e revistas pornográficas para terem prazer. Quando o casal traz para dentro de sua relação sexual a pornografia, corre o perigo de não se excitar mais com o cônjuge e sim com a fantasia e ilusão de que todas as mulheres têm a obrigação de terem o bumbum arrebitado, os seios fartos, livre da celulite e estrias e gozar com gemidos e urros como as atrizes. Lembremo-nos que essas mulheres são escolhidas a dedo, e muitas delas vivem só para isso, daí a obrigação de zelarem pelo corpo e a maciez da pele, que aliás, muitas vezes o fotoshop e lentes que as deixam mais novas e viçosas, são bons recurso para elas. Ao vivo, nós não temos como recorrer a ele.

Li um artigo em certa revista cristã que carrega toda mentalidade machista e tradicional a respeito da mulher e do sexo. O autor declara que o sexo e suas fantasias continuará a ser um terreno prioritariamente masculino. Creio que ele ainda se encontra no século anterior à escrita. Já foi comprovado que quando a linguagem oral passou para a escrita as cantigas de roda onde a mulher era ativa sexualmente foram transcritas pelos homens para a linguagem escrita alterando a tradição e colocando a mulher como passiva sexualmente. ( Vide no meu livro “Um outro Gênero de Igreja”. Edit Fonte Editorial, onde descrevo o preconceito contra o gênero feminino).

Na realidade, a mulher sempre quis experimentar sua sexualidade livremente, mas nunca conseguiu porque se sentia  intimidada pela dominância masculina. Uma mulher que saísse com mais de um rapaz na década de 40 e 50 seria considerada “vulgar” e “leviana”, e levava a pecha de “galinha”, indigna de casar com um rapaz ‘sério. Pessoas da minha geração devem se lembrar da frase famosa quando uma moça engravidava solteira: “Fulano ‘fez mal’ à sicrana.” Isto é, os jovens queriam as “levianas” para transar, e as virgens para casar.

A mulher até a década de 70, tinha seu papel bem definido pela sociedade: cuidar da casa, guardar a virgindade para seu futuro marido ( que não necessariamente precisava ser virgem), quando casada, cuidar dos filhos e ser submissa ao seu marido ( principalmente no meio evangélico). O homem é o cabeça do lar, segundo a leitura tradicional e machista da Bíblia e a mulher deve dizer sempre “sim Kyrios”- Sim, senhor, meu amo.

Com o evento do feminismo esse papel começou a ser questionado e se fizermos uma leitura mais acurada da própria Bíblia veremos que no Novo Testamento há versos que liberam a mulher, e lhe dão igualdade, haja vista que Jesus repreende Marta por estar ocupada demais com os afazeres caseiros, em vez de fazer como Maria, sentar aos seus pés e aprender dEle e do Reino. (Tempo quando era proibido às mulheres terem um relacionamento de amizade com um homem ou mesmo de deixa-lo entrar na sala de visita, ou de estudar a Torá).

A construção evangélica quanto ao papel da mulher até os dias de hoje, deve-se muito à escolha seletiva de alguns versos e esquecimento de outros que declaram sua igualdade diante de Deus e da sociedade.

Como nos fala Simone de Beauvoir, nos seus magníficos livros : O segundo sexo volume I e II – Não se nasce mulher, faz-se mulher. Isto é, a sociedade construiu um estereótipo do papel da mulher e do homem, priorizando, claro e dando maior importância ao homem, e na área sexual não poderia ser diferente.

As críticas à obra de E. L. James carregam preconceito quanto ao gênero feminino e à própria autora, sendo geralmente citada como “dona de casa de meia idade” como se isso fosse um demérito. Até mesmo os homens que escrevem sobre a obra, já mostram seu preconceito quando querem impor um papel à mulher como sexualmente passiva, no seu “devido lugar”, querendo exaltar o seu lugar como dona de casa e dando ao homem o papel ativo e como o que mais deseja sexo. Demonstram uma postura machista quando chamam a autora de uma “simples dona de casa”. Usam a idade  também como um obstáculo à criatividade e à liberação da sexualidade. E daí que uma mulher dona de casa, mãe de dois filhos e da meia idade consegue ser criativa a ponto de escrever uma trilogia erótica que alcançou milhares de pessoas?

E daí que quem mais se interessou foi a mulher e principalmente as “mamães” e “vovós” de 60 anos? Quem instituiu que as mães e avós não podem mais ter prazer sexual? O mito da velhice assexuada precisa desaparecer. A mulher pode exercer sua sexualidade, tanto quanto o homem, em qualquer idade. Será que o interesse não revela que finalmente alguém conseguiu suscitar a libido amortecida de donas de casa e “vovós”?  Os filhos terem filhos por acaso retiram a sexualidade do corpo da mulher?

O autor de um artigo escreve que o livro “tenta disseminar fantasias masculinas no coração das mulheres, como se isso fosse próprio de sua natureza.” Quem falou que as mulheres não têm desejos e fantasias sexuais? Quem comprovou que somente os homens têm a natureza sexual?

A sociedade por anos quis incutir isso e intimidar as mulheres a sentirem prazer. As mulheres eram somente mercadoria de troca. Casar por amor somente passou a existir a partir do século XIX começo do século XX. Elas não podiam nem escolher, nem receber herança.

 

Inúmeras as razões pelas quais a trilogia fez tanto sucesso, principalmente entre as mulheres. Não é surpresa para ninguém o fato de que as mulheres, em geral, não gostam de filme pornográfico. Mulher não se excita em segundos, como os filmes pornográficos mostram: um homem se aproxima, penetra-a e ela já geme urrando de prazer. Isto não existe. O biorritmo da mulher é bem diferente. Ela precisa de preliminares, xaveco no pé do ouvido, carinho, toques, e tempo para se excitar, até estar pronta para um orgasmo, o homem deve ter muita paciência e jeito.

Na trilogia, o personagem principal é um jovem de 27 anos, descrito como muito bonito, corpo bem torneado, milionário, inteligente, sagaz, bem sucedido, e cá entre nós, muito bom de cama. No início do romance ele diz para a jovem que não é de romance, que não acredita em flores e cartõezinhos. Mas, no livro 2 ele a surpreende levando-a a uma parte da casa da sua mãe onde há um deck em um lago. Ao abrir a porta ela encontra o lugar repleto de flores, ao que ele exclama: Sei que você gosta de flores e corações, as flores estão aqui, e coração você já tem o meu.” Quem não cairia por um homem romântico e criativo como esse?

Sem contar que ele troca o fusca dela por um Audi maravilhoso por temer pela “segurança dela.” Compra uma editora para ela não ser mais funcionária de um chefe que a assediava sexualmente. Embora, a meu ver, a Anastasia muitas vezes se torna uma chata, porque tudo que ele quer fazer por ela, é questionado. E, talvez seja por isso que Christian Grey cai de quatro por ela. Acostumado com mulheres submissas que sempre aceitaram tudo que ele quis, é instigado por essa jovem inexperiente, mas tinhosa.

Particularmente, não creio que a hora do sexo seja a melhor para se discutir uma relação, e sim para ter prazer e aproveitar o momento

Bom, claro que a autora consegue cativar o público feminino, porque descreve um homem exatamente como as mulheres gostariam: sexo com romantismo, um homem forte, inteligente, esportista, sexy, determinado, e ainda por cima toca piano! Ok, tem o problema maior que é o sadismo, mas a autora consegue contorná-lo mudando Christian ao longo da trilogia, para felicidade das leitoras.

As descrições dos momentos sexuais fazem com que a fantasia voe solta. Quantas mulheres não reclamam da falta de romantismo e de preliminares na hora do sexo? O livro encontra-se repleto de sensualidade e erotismo.

Quando se escreve sobre 50 Tons de Cinza e se traz à tona a violência doméstica, não se está sendo honesto. Violência doméstica, espancamentos e abusos por raiva ou ira, é bem diferente do que acontece no livro. Há cenas de sadismo no primeiro, porém, em uma relação sadomasoquista, o consenso entre o casal é geralmente a ordem. Embora, eu , pessoalmente, não acredite que a obra de E. L. James se baseie somente nisto. Ela começa com isso, mas mostra toda uma trama ( longe de ser uma obra clássica literária) interessante que mostra a evolução do personagem principal.

Muitos criticam também afirmando que a autora mostra que o amor pode curar um desvio sexual como o sadismo. Esquecem que no livro o personagem principal tem psicólogo e psiquiatra. Portanto, ele não é curado somente pelo amor. E, por favor, não esqueçamos, é um livro de ficção, não um tratado científico sobre a cura de um sadista. Quem dera termos mais homens inteligentes, românticos, sensíveis, cuidadosos e bons amantes como o personagem de E. L. James.

Enfim, a moralidade evangélica e cristã critica algo sem se aprofundar, se horroriza com o alcance do livro e do filme. Proíbe, queima, levanta suposições ridículas e absurdas, levadas pelo que ouviram falar, sem nem se darem ao trabalho de ler os livros ou ver o filme.

Particularmente, li os três livros, com o interesse de finalmente ver um bom livro descrevendo um bom sexo do jeito que uma mulher gostaria ( excluindo a parte do sadismo), e com o interesse de psicóloga e terapeuta sexual. Gostei da trama, das descrições e do romantismo expresso ali, sabendo, claro , que um homem perfeito como o Christian Grey, só mesmo numa obra de ficção, e especialmente escrita por uma mulher, que sabe o que uma mulher desejaria em um homem.

Silvia Geruza F. Rodrigues

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6 comentários

  • Affari disse:

    Prazeres sexuais são sabotados pelos traumas e deseducação familiar. Amor e sexo podem ser vividos – na sua plenitude – pelo consentimento dos parceiros. Tudo vale qdo há permissão de prazeres, aventuras e mútua consideração. Defeitos de percepção podem arruinar toda uma vida, assim como desorientações internalizadas e experiências mal sucedidas. Homens e mulheres estão precisados de mais LIBERDADE entre eles… Mais vontade de ser o que realmente importa: animais, mamíferos e racionais. Aprender a dominar receios e mitigar as clausuras construídas, VIVER Sílvia, parabéns pelo artigo!!!!

  • Elson Medeiros disse:

    Gostei do que voce escreveu Jerusa, eu assisti o filme com minha esposa e não vimos nada demais, sem neurose, obssessao, nóia ou desvio de percepçao ou desequilibrio em nosso relacionamento, ou nem mesmo escandalizado com nada que pertubasse nossa fé pelo que o filme apresentou. Realmente percebemos que há o problema com o Christian(cristao em portugues ou crente pra alguns, que ironia né, heheherssrsrs). Nao sabia do livro, nem da trilogia, mas imaginei que teria continuidade pela cena que o filme termina. E também em todas as cenas revela pelas atitudes dele para com ela que tem consciencia do seu problema e que deseja se curar ao encontra-la e ser diferente de outras, mas que sente-se impotente para isso. A polemica que geralmente é criada pelos evangelicos igrejeiros, neuróticos, oprimidos pela religiao e seus lideres com falso moralismo, daí nem leêm nada, e quando leem a Bíblia somente aqueles versiculos que lhes interessam, para fazer barganha com Deus. Nao procuram no próprio Deus Sabedoria e Discernimento. Sao pessoas cheias de preconceitos, medrosas e em tudo ver o diabo, fim do mundo ou o anti-cristo ou a besta que está neles mesmo, na consciencia deles. Infelizmente é isso, tudo que acontece ao redor deles nao sabem como lidar e esquecem ou não sabem do que Jesus falou, nao os peço que os tire do mundo,mas que os livre do mal. Mas , nem do mal neles mesmo eles estao livres nem querem se libertar e gram discussoes sem chegar a nenhum conclusao.

  • maria helena disse:

    Isto é uma crítica de quem realmente tem cultura, conteúdo, sabedoria e acima de tudo, leu a trilogia. Fantástico!

  • Esmeralda Fernandes disse:

    Um artigo esclarecedor, construtivo e com sabedoria, em um assunto complexo, mas que conseguiu trazer uma racionalidade, que infelizmente muitos antes de analizarem saem criticando e colocando sentimento de culpa nas pessoas, mas você, dissecou de forma inteligente e sábia! Parabéns.

  • Viviane Caldatto disse:

    Realmente a igreja (religiosidade, principalmente por parte dos homens machistas) coloca um fardo sobre nós mulheres, o que muitas vezes se transforma em disfunções sexuais.
    Vou iniciar minha pós graduação em saúde sexual e meu sonho é poder ajudar mulheres, principalmente no meio evangélico, iniciando na igreja a qual frequento desde bebê (e que é bem conservadora).
    Enfim, gostei muito do seu artigo. Parabéns.

  • Mauro disse:

    Boa Tarde Geruza,
    Sobre o filme, deixe-me dizer o que penso!
    Assisti o mesmo sozinho, sou casado.
    Primeiro o Christian Grey é um sadista e apresenta um desvio que foi causado por uma amiga que o abusou, se é que podemos dizer assim. Tando que ele diz a frase misteriosa a ela:
    __Abusado em 50 tons diferetes…, ou seja acredito que sua amiga o abusou com os 50 objetos de sadismo
    Ele só sente prazer com aqueles objetos, ferindo a pessoa, agredindo, enfim, é o que ele faz com a namorada.
    Porque a igreja critica o livro e filme(Não levando em consideração os radicais)?
    Primeiro, é um caso sem compromisso mútuo.
    Segundo, o Christian apresenta um prazer anormal, não apoiado pela bíblia. No meio pentecostal ele precisaria passar por uma cura interior.
    Terceiro, o filme foi lançado em cinema e milhões de jovens solteiros o assistiram e ainda assistem. O que causou uma enxurrada de pessoas virando sádicos ou sadistas.

    Creio que um casal ver, pouco mal faria, mas um solteiro ver um filme desses bem como o livro não seria nada bom. Conheço pessoas que depois de assistir o filme resolveram usar objetos para agredir o companheiro.
    É isso que criticamos, O mundo já está muito pornográfico, e isso só tende a aumentar essa cota.

    PAZ

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