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Pode-se Obrigar o Amor?

Recentemente uma jovem ganhou uma causa na justiça contra seu pai alegando que este nunca havia lhe oferecido afeto. Se não me engano obrigaram seu pai a lhe pagar cerca de duzentos mil reais por tê-la negligenciado amorosamente. Quedei-me a meditar sobre este evento. Até que ponto o amor pode ser obrigado? Mais ainda, até que ponto o amor deve ser uma obrigação e deve prestação de contas à justiça?

O filósofo francês André Comte-Sponville, no seu livro Pequeno Tratado de Grandes Virtudes, ao dissertar sobre o amor, nos traz uma luz sobre o assunto. Ora, o amor faz parte da moral, não do direito. Para Sponville, o amor não se comanda, pois não é um dever. O amor deve ser espontâneo. Ele se constitui uma virtude, não um dever. “O dever é uma coerção, a virtude uma liberdade” (p.241).

Segundo Kant o dever é um jugo, uma tristeza, enquanto que o amor é uma espontaneidade alegre.

O amor faz parte da moral porque só precisamos da moral quando ele falta. O amor evidentemente faz falta. O dever conclama: age como se amasses. Quando existe amor, não se torna necessária a obrigação, pois ele age com alegria e realiza as tarefas que, quando ausente, torna-se um dever.

Geralmente a mãe amamenta e cuida do filho com prazer; o marido é afetuoso com sua mulher, com prazer; a esposa trata bem o marido com prazer. Quando se ama pequenos gestos tornam-se naturais, tais como um beijo de despedida, um bom dia carinhoso, um carinho na hora de dormir. É prazeroso voltar para casa e pronunciar a famosa frase lar doce lar, quando se ama. Mas, que sacrifício voltar para casa e enfrentar aquele ou aquela a quem não mais se ama. Que sacrifício ter que tomar conta de alguém que não se ama, e isto pode acontecer.

A mãe que sofre de depressão pós-parto, involuntariamente nem quer ver o filho, muitas das vezes. Porém, isto é uma exceção, parte da doença. Ou, quando a criança é indesejada, que tortura deve ser tomar conta dela, mas isto também é uma exceção, pois o natural seria amar e cuidar de seu filho ou filha. Quando este amor não existe, então vem o dever e obriga os pais a cuidarem dos filhos, embora não sejam esses cuidados carregados de afeto.

Já escrevi em um artigo sobre um anúncio colado em vários postes pela cidade: Trabalho de amarração. Trago seu amor de volta,. Resultado garantido, pague somente após o resultado. Questiono novamente: que valor tem um amor trazido de volta à força? Às custas de um trabalho de amarração? O nome já sugere: Você virá para mim nem que seja à força, amarrado. Segundo Jean Yves-Leloup, o amor verdadeiro diz: Vá de encontro a você mesmo, pois você somente conseguirá me amar se for você mesmo. Sim, o amor verdadeiro só terá condições de subsistir se você entrar em um relacionamento inteiro como ser humano.

Rubem Alves, psicanalista, afirma que a saudade é o chão do amor. Já Hélio Pellegrino, psicanalista e poeta, afirma que a liberdade é o chão do amor. Espaço, liberdade, espontaneidade constituem o amor como virtude, não como dever ou obrigação, portanto, nenhum oficial de justiça, nenhuma multa, nenhuma quantia podem substituir o amor. Sua falta se faz sentir em todo relacionamento. Ele é necessário em nossa vida, mas precisa ser espontâneo, prazeroso tanto para quem ama para quem recebe o amor.

Que possamos aprender a amar e a receber, sem cobranças, com liberdade e espontaneidade. Vale a pena amar e ser amado dessa maneira!

Silvia Geruza

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