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Minha mãe Guió

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Ouvimos e repetimos muitos clichês sobre mães: Mãe é única. Mãe é para sempre. Mãe nunca se esquece. Mãe, mãe, mãe. Porém, esses clichês somente se tornam realidade quando elas se vão.

Faz sete anos que minha mãe se foi, com 90 anos de idade.Uma guerreira. Mulher corajosa que criou seus seis filhos (seriam sete se um não tivesse morrido ao nascer) praticamente sozinha. Minha mãe poderia ser apelidada de mãe-bril: mil e uma utilidades. Era costureira, professora de corte e costura da prefeitura, teve um salão de cabeleireiros; fazia crochê, tricô, pintava seda à mão; bordava tanto à mão como na máquina;confeccionava rosas de seda e tudo isso com muita perfeição. Poderia ser uma estilista nos dias atuais, e das boas. Quando queríamos um vestido, levávamos minha mãe à vitrine e somente o mostrávamos. Ela decorava o modelo, o tecido, comprava tudo e em uma semana estávamos usando exatamente aquilo que queríamos. Trabalhou muito para nos sustentar.

Lembro quando pequena de ouvi-la cantando para dormirmos, minha irmã mais nova e eu, uma em cada rede e uma corda para puxar cada uma. Sua voz era muito bonita e afinada, diferentemente da minha. Vicente Celestino, Francisco José, Nelson Rodrigues e suas músicas embalaram meu sono, embora muitas das letras fossem dramáticas e muitas vezes com finais não muito felizes. Foi uma mulher adiante do seu tempo, embora nos disciplinasse com escovas de cabelo, cintos, fios elétricos, tinha elementos especiais para a disciplina. Fazia mini- saias e biquinis para nós. Íamos a festas e baladas com os amigos. Matinês e vesperais; ela não se importava.

Porém, tínhamos que obedecer os pais. Ela e meu pai não admitiam palavrões, nem responder quando estavam nos disciplinando. Obedecer era um mandamento importante na minha casa. Íamos à missa todo domingo. Lembro que confessávamos no sábado e comungávamos no domingo. Seis horas da manhã todo domingo estávamos na missa do Cristo Redentor.

Era uma amiga dedicada. Recordo que ao chegar do estágio (23:00) minha mãe me esperava com um banco dentro do banheiro para que eu contasse todas as novidades do dia enquanto tomava banho. Depois íamos para a mesa do jantar, onde ela guardava uma sopa quente ou bife com arroz. Sentava comigo enquanto eu comia e depois escovávamos os dentes juntas e cada uma ia para seu quarto. Pela manhã, ao despertar, antes de ir para a faculdade, havia sempre uma tapioca quente, café com leite ou cuscuz de milho com manteiga e leite de coco. Ela era expert em fazer cocada branca, bolos dos mais variados possíveis, doce de mamão verde com coco, de banana, de goiaba, de leite, pudim. O meu predileto, claro, era doce de banana com creme de leite. Havia outras guloseimas que nem sei o nome hoje, mas sinto falta dos biscoitos, do café quente às 17:00 todo sábado, com tapioca, manteiga e queijo coalho.

Minha mãe era criativa e brincalhona. Houve dias quando não tínhamos muito o que comer. Lembro das viandadas que ela comprava e fazia-as empanadas. Hoje não toleraria comê-las, porém, na época eu amava. Pão empanado com açúcar, nem lembro o nome, mas ela fazia de tudo para a comida aumentar e alimentar todos os seus filhos, sem contar com os inúmeros sobrinhos e sobrinhas que vinham de outras cidades morar em nossa casa para estudar.

Na época do vestibular, algumas amigas e eu estudávamos a noite inteira para passar na Universidade Federal. Na época, as provas eram somente aos domingos, duas de cada vez e duravam quase dois meses. Por toda a semana, minha mãe passava a noite acordada conosco fazendo café, servindo bolo, chá e outras guloseimas para que tivéssemos forças para ver o dia amanhecer estudando. No dia das provas, ela sentava-se ao pé do rádio para ouvir o gabarito, comprava o jornal para vermos as notas e minha classificação. Comprava os tecidos e fazia os vestidos para mim, sem eu nem escolher, mas eu gostava de todos. Sempre que me levava ao médico, ele perguntava: é filha única? Não, por quê? Porque ela não tem nada, é só mimada.

Não, eu não era a filha predileta, imagine se fosse. Creio que minha mãe tratou todos assim mesmo, com zelo, embora até hoje eu afirme que minha irmã mais nova que eu era a prediletinha dela, depois a mais nova ainda, Elys Dayre. Minha mãe não tinha muito bom gosto ao escolher os nomes, mas, gosto muito do meu! Por ser muito católica, tenho irmãs com o nome Francisca, Teresinha, Francisco, e ufa: no meu nome ela saltou, não sei porquê, mas veio Silvia Geruza, depois Suerda, depois Elys Dayre. Não me perguntem de onde vieram esses nomes que não saberia explicar, mas creio porque os nomes mais comuns dos santos fugiram da sua memória.

Gostava de jogar buraco. Aliás, foi com ela que aprendi e só jogava com ela. Ela amava tirar muitas cartas de uma vez e fingia que havia se enganado.De vez em quando tento fazer isso com o Felipe Naran e ele diz: Guió, Guió.

Era uma mulher que não sabia dizer não. Solidária, fazia shorts dos retalhos das clientes para dar a crianças pobres das favelas. A essa mulher corajosa, amorosa, cuidadosa, jocosa, guerreira, habilidosa com as mãos e com a voz que quero prestar minha homenagem.

Mãe, sinto falta da sua voz me embalando para dormir. Sinto falta dos seus cafunés, da sua crença no meu potencial, do seu incentivo, do seu amor, de sua pessoa, por tudo que você foi e é em minha vida. Te amo mãe. Tenha lindos passeios onde você está.

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