
E a luta continua
Silvia Geruza F. Rodrigues
A violência contra a mulher continua. Petrificadas recebemos notícias,
quase que diariamente de mulheres vítimas de violência doméstica, e de estupro.
De acordo com o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública),
85% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer violência sexual.
Uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos, como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro a cada minuto.
No Brasil uma mulher a cada três horas é estuprada, oito por dia, isso em dados denunciados pelo número 180. No Rio de Janeiro, 12 mulheres são estupradas diariamente.
No ano de 2016, 503 mulheres foram vítimas de agressão física a cada hora no país.
Isso representa 4,4 milhões de brasileiras (9% do total das maiores de 16 anos).
Se forem contabilizadas as agressões verbais, o índice de mulheres que se
dizem vítimas de algum tipo de agressão em 2016 sobe para 29%.
A pesquisa realizada pela Datafolha mostra que 9% das entrevistadas relatam ter levado chutes, empurrões ou batidas; 10% dizem ter sofrido ameaças de apanhar.
Além disso, 22% afirmam ter recebido insultos e xingamentos ou terem sido alvo de humilhações (12 milhões) e 10% (5 milhões) ter sofrido ameaça de violência física.
Há ainda casos relatados mais graves, como ameaças com facas ou armas de fogo (4%),
lesão por algum objetivo atirado (4%) e espancamento ou tentativa de estrangulamento (3%).
Muitas não têm coragem de denunciar, por medo ou por vergonha.
Os registros de violência sexual mostram que 89% das vítimas são do sexo feminino.
Do total, 70% são crianças e adolescentes.
3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos.
O homicídio de mulheres negras aumenta 54% em 10 anos,
Até hoje as mulheres trabalham, em média, 7,5 horas a mais que os homens
por semana devido à dupla jornada, que inclui tarefas domésticas e trabalho remunerado.
Os homens ainda recebem salários 30% maiores que as mulheres.
Ainda hoje os homens recebem salários 30% maiores que as mulheres.
Apesar de não ser feminista militante, desde que me conheço com alguma lucidez,
luto contra a cultura do machismo. Acho até tedioso ler muitos textos das feministas ferrenhas.
Não creio que se necessite tornar-se inimiga do homem para lutar pelos direitos das mulheres.
Deveria haver uma harmonia entre os gêneros.
No livro Um outro gênero de Igreja * trabalho esse desprezo e desvalorização da mulher,
que se arrasta há séculos.
A ideia da inferioridade feminina perdura desde a antiguidade,
quando os primeiros filósofos e médicos, seguidos pelos Pais da Igreja
com conhecimento distorcido do formato biológico feminino e
próprios conceitos misóginos disseminaram atitudes exclusivas contra a mulher,
negando-lhe o direito de votar, de interagir política, social e espiritualmente,
isolando-a em trabalhos domésticos, educação de filhos e exercendo
papeis secundários em quase todas as esferas do cotidiano” (p.11).
Através de meios de comunicação, mídia e pregações de púlpito, a Igreja Protestante,
na sua maioria, coloca a mulher à parte como cidadã de segunda classe,
ensinando-a a se submeter à liderança do homem, reconhecendo as diferenças de funções.
Como a história é geralmente escrita pelo homem, mulheres permanecem ocultas
e afastadas da literatura geral. Embora muitas tenham escrito brilhantemente
e lutado com heroísmo, somente o nome do marido, quando casadas,
surge no cenário literário, ou mundial. Quando poucas aparece, é porque foram consideradas
“excepcionais”.
No livro O martelo das bruxas, de Kramer & Sprenbger (1971), escrito originalmente em 1484
por esses dois inquisidores, podemos observar o pensamento medieval sobre as mulheres,
como ‘fracas’, ‘enganadoras’, intelectualmente como crianças’, defeito de formação’,
‘animal imperfeito’, ‘raiz da feitiçaria’, mostra claramente o mínimo valor dado às mulheres.
Ora, admira que a mulher seja objetificada com a ideia vinda de séculos e séculos
sobre seu corpo e sua própria identidade:
Numa bem suja e vil oficina
Tu foste fabricado de um limbo (que é) tão medonho e tão miserável
que meus lábios não se prestam a dizer-te.
mas se tens um pouco de senso,
poderás bem saber
que foi estrume podre e corrompido
o corpo frágil em que te alojaste,
de onde foste atormentado oito meses e mais,
tu saíste por uma vil passagem
e caíste no mundo, pobre e nu…
(Franciscano Giacomino de Verona, Metade do século XII).
Agostinho, um dos principais teólogos da Igreja Católica (Séc. IV d.C.) afirma
que as mulheres pela “‘lei natural’ devem servir aos homens,
porque seria somente a imagem de Deus através do seu marido. “ (…)
“os homens por sua natureza, se preocupam mais com o espiritual,
enquanto as mulheres se incomodam mais com o físico e o sensual”
(Silvia Geruza, 2011, p. 24-25).
“Ambrósio derivou a palavra latina para mulher,
mulier, de mollities mentis (mente mole),
contrastando com a derivação de vir, homem, de animi virtus,
significando fortaleza da alma”.
(Silvia Geruza, 2011, p. 25,).
Não sei se haveria muita diferença do que algumas letras de funk
usam para descrever a mulher, e muitas descrições de ‘santos’ da igreja sobre a mulher.
Você não sabe que uma mulher é uma quimera. Aquele monstro tem três formas,
sua face era de um leão nobre e radiante, tinha o ventre podre
de um bode e braços de um rabo virulento de uma víbora. Ele quer dizer que
uma mulher é bela de se ver, porém contamina com o toque e mortal de se ter.
(…) A voz delas mata os passageiros esvaziando suas bolsas, consumindo
sua força e fazendo com que se esqueçam de Deus. (…).
Sua postura revela a vaidade das vaidades. (…)
A mulher é um inimigo secreto e sagaz. (…).
É mais perigosa do que o engano dos
caçadores porque os homens não são pegos somente através de seus desejos carnais
quando veem e ouvem as mulheres.
S. Bernardo afirma:
A face delas é como um vento que queima, e sua voz o sussurrar das serpentes.
(Martelo das Bruxas, in: Silvia Geruza, 2011, p. 27-29, ).
Mc Nego blue:
Depois da balada, te faço um convite
Se tiver solteira vem pra minha suíte.
Mulher mulher mulher…
Eu te dou condição, assim que tem que ser
Nóis fecha camarote só para ver o coro comer
Mulher mulher mulher
Mulher só serve para ir para a cama? Se ela é toda sensualidade, como diz Agostinho.
Extraído do Funk Club
Mu-mu-mulher é porca
Porca
Porca
Quando a mulher é porca
Cheira a bacalhau
Quando a mulher é porca
Tem gostinho de sal
Quando a mulher é porca
Chamam de jaburu
Quando a mulher é porca
Pega mal pra chuchu
Quando a mulher é porca
Porca
Qual a diferença dessa letra de música, de um artigo que chama o ventre da
mulher de verme podre? A ideia é a mesma.
A inutilidade da mulher perante a superioridade do homem.
Mc Pocahontas – A mulher do Poder.
Gosto de gastar, isso não é novidade
Hoje eu já torrei mais de 10 mil com a minha vaidade
É salão de beleza, roupa de marca, sandália de grife no pé
Bolsa da Louis Vuitton, sonho de toda mulher.
No inconsciente coletivo, de geração a geração a imagem da mulher formada pela sociedade é de vaidosa, carnal, sensual, interesseira e fútil.
Para concluir, toda bruxaria vem do desejo carnal, que nas mulheres é insaciável.
(…). Para obter a satisfação de seus desejos, portanto, elas fazem pacto com todos os demônios”.
(Martelo das Bruxas in: Silvia Geruza, 2011, p. 28).
Não tenho espaço aqui para falar do conteúdo do conceito que os principais filósofos
da Antiguidade formaram sobre a mulher, porém, enquanto não mudarmos nossa concepção
e preconceito contra a mulher considerando-a cidadã de segunda categoria,
inferior ao homem e incapaz de liderar, a mentalidade do estupro continuará e se perpetuará.
Enquanto não abrirmos os olhos para o fato de que a mulher não é e nem
quer ser objeto de desejo, continuaremos com a cultura do estupro.
Enquanto não pararmos de aceitar conceitos e preconceitos sem um senso de crítica,
a mulher continuará isolada, desvalidada, desvalorizada,
com sua identidade sendo construída por uma sociedade machista e misógina.
*Rodrigues, Silvia Geruza – Um outro gênero de igreja. São Paulo: Fonte Editorial, 2011.
Adorei o seu texto. Parabéns!
obrigada!
Nossa muito triste ver que a sociedade ainda enxerga a mulher como qualquer coisa, só que esquecem que a seiva da vida, a graça de conceber a vida foi dado a mulher e se tem homens no planeta, esses devem a esse poder tão especial da Mulher trazer vida a esses!