
Relacionamento com os pais – os processos evolutivos da família
Silvia Geruza F. Rodrigues
A família não é estática, ela atravessa ciclos e transformações. Ela se inicia
Na fase de aquisição, quando os dois acasalam e se tornam um nos ideais,
nos projetos e nos sonhos. Obviamente que cada um traz na sua bagagem
os valores e comportamentos adquiridos na família de origem.
Quando casamos nos vemos entre duas escolhas:
Repetir os padrões de comportamento que observamos na nossa família de origem,
ou romper com os modelos, rituais e valores que não gostaríamos de levar para a família atual.
Várias vezes na Bíblia observamos o princípio de que devemos
“deixar” pai e mãe e construir nosso próprio lar, com nossos valores e maneira de ser.
(Cf. Gn. 2:24; Ef. 5:31; Mt.9:15) –
“Deixará o homem seu pai e sua mãe, unir-se-á à sua mulher
e serão os dois uma só carne”.
Aqui está falando de “deixar mesmo”- isto é, o casal precisa de ajustes.
As diferenças surgirão inevitavelmente e nesses momentos, necessitam
rever os comportamentos que tendem a repetir, principalmente aqueles
que tanto observaram e detestavam no relacionamento dos seus pais,
ou dentro da sua família anterior. Agora surge a oportunidade de trabalhar as diferenças,
planejar para o futuro estabelecendo metas. O grande problema é que o casal pensa
que uma família vai fluir naturalmente, sem planejamento, sem direção,
sem sentido de vida familiar.
Alguns problemas podem surgir. Um deles é que muitos homens
são emocionalmente muito ligados aos pais, muitas vezes,
mais com a mãe, que por sua vez é muito ligada ao filho e
não quer largar o osso, como se fala no senso comum.
“O filho é meu” pensam muitas mães, não compreendendo
que a nora não é uma inimiga e sim outra mulher que seu filho também ama
e que chegou a hora de construir sua vida autônoma com outra pessoa.
Outro problema comum observa-se quando mulheres não querem abandonar
o ninho dos pais, nem física e nem emocionalmente.
“Quem casa quer casa” diz o ditado popular, aliás, uma premissa perfeita:
Deixar emocional e fisicamente a casa dos pais pode ser muito difícil
para filhos e filhas únicas que não conseguem alçar voo próprio.
Os pais, por sua vez, temendo o ninho vazio, ou super – protetores
querem manter seus filhos ou filhas atados a eles simbioticamente,
sem perceber a necessidade de os filhos construírem seus próprios lares.
Quando os netos ou netas nascem, o problema pode se agravar
com a imposição da mesma educação dada aos seus filhos ou filhas.
O novo casal deve impor limites e regras e ser fortes no sentido
de deixar ver aos pais que os filhos são seus e a educação deve ser a seu modo, não a dos pais.
O tempo de palmatórias, surras e punições violentas já passou.
Já imaginaram se as crianças hoje fossem criadas como nossos pais nos educaram?
Seriam todos presos pelo conselho tutelar e a vara da infância.
A penúltima fase de uma família pode ser difícil, se as outras fases
não forem trabalhadas integralmente. Quando os filhos saem de casa para a faculdade,
casamento ou para exercer sua profissão em outro Estado ou País,
o casal precisa ressignificar sua relação conjugal, isto pode implicar olhar de volta para o outro.
Quando os filhos nascem, a tendência é os dois se voltarem para
aquele pequeno bebê, e assim ele cresce sendo o centro de atenções.
Se o casal permanecer colocando os (as) filhos (as) como seu único motivo de viver juntos,
o medo de tê-los longe se intensifica. Olha um para o outro e se pergunta: e agora?
O que fazer? Como reconstruir um relacionamento que se esvaiu ao longo do tempo?
Daí a necessidade de o casal constantemente renovar o amor, o carinho, o respeito,
a admiração e a cumplicidade no relacionamento a dois. Os filhos são complementos desse amor,
não a totalidade.
Por outro lado, as (os) filhas (os) não devem abandonar seus pais ao se casar.
Dar atenção, moderadamente, ser gratos por tudo que lhe fizeram e
demonstrar isso com zelo, carinho e amor serão apreciados pelos pais,
caso contrário adquirirão um sentimento de perda e inutilidade com a
sensação de que o que fizeram não valeu a pena.
As cobranças dos pais podem representar a carência afetiva,
própria da fase da aposentadoria. Aos casais nessa fase, o bom seria olharem um para o outro,
aproveitarem esse momento de não ser obrigados a fazer mais nada pelos filhos e começarem,
antes tarde do que nunca, a curtirem o que gostam de fazer a dois ou individualmente.
A Bíblia tem um verso em Eclesiastes que aconselha o casal a curtir um bom vinho,
gozar da mulher da sua mocidade com alegria e vá ser feliz.
Um relacionamento saudável, constantemente renovado e ressignificado
lhe proporcionará uma saúde mental ao longo de todas as suas fases da vida.