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Considerações sobre a sexualidade humana

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Considerações sobre a sexualidade humana

Silvia Geruza F. Rodrigues

Para falar sobre sexualidade humana, necessitamos diferenciar sexualidade, sexo e erotismo.

Entendemos sexualidade como uma energia que abrange todas as esferas da nossa vida. Ela nos motiva para encontrar amor, contato, ternura e intimidade. Ela influencia nossos pensamentos, sentimentos e ações. Ela se compõe dos elementos biológicos, psicológicos, sócio-econômicos, políticos, cultural, éticos, legais, religiosos e históricos.

De acordo com o dicionário Houaiss, sexo é cada um dos grupos (machos e fêmeas) em que se dividem os indivíduos de várias espécies, de acordo com suas características orgânicas e seus papéis na reprodução; o contato físico entre indivíduos envolvendo estimulação sexual dos genitais, por meio do qual é possível gerar novos seres, ou um prazer decorrente do estímulo dos órgãos genitais ou de estímulos sensuais.

Já o erotismo se constitui em uma metáfora da sexualidade (Paz, 1995, p.13. abud Marino, O discurso erótico, p. 36). Para Paz, o erotismo é exclusivamente humano, é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e a vontade dos homens ( p.13).

Segundo Marino (2013, p.37), o erotismo é movido pela descoberta, pela conquista, pelo desejo de possuir.

Em alguns momentos a sexualidade e o erotismo se entrelaçam e constituem o ato sexual.

BREVE HISTÓRIA DA SEXUALIDADE

Segundo Rodrigues (2012, p. 21), existem basicamente duas linhas teóricas referentes à sexualidade humana. O construcionismo social e o essencialismo. O construcionismo social enfatiza o papel do ser humano como agente influenciado marcadamente por suas relações sociais na estruturação dos seus significados e valores sexuais, trazendo significados simbólicos ao corpo e suas expressões sexuais.

O Construcionismo social postula que a sexualidade é socialmente construída por eventos, forças históricas, tensões, política, relação de poder, movimentos e preocupações culturais que moldam nossas culturas, sistemas de valores e o cotidiano. Se o ser humano se constitui ao se relacionar com o outro e mudanças constantes acontecem com esta interação, assim muda a sexualidade e seus conceitos e valores.

Já o essencialismo reduz a forma de pensar a sexualidade a um fenômeno, a uma essência preexistente – o ser específico, o que uma coisa é, natureza, caráter, substância, ser absoluto, que tenta explicar formas complexas através de uma força ou verdade interior fixa e imutável . (Rodrigues, 2013, p. 22).
Michel Foucault (2006,2007,20010), em sua trilogia da história da sexualidade usa os termos sexo e sexualidade intermitentemente. Ele nos dá uma visão do que aconteceu com a sexualidade ao longo dos séculos.

Dos ascetas dos primeiros dois séculos depois de Cristo através de seus teólogos, tais como Agostinho (Século IV d.C.) até a influência do cristianismo, principalmente a partir do século XVIII em diante quando falar de sexo e dos atos que poderiam ser praticados ou não, o domínio sobre a sexualidade das pessoas se constituía o objetivo primordial para se ter total controle sobre o indivíduo.

Na medicalização da sexualidade se instituiu o que era bom e ruim no sexo. Na pedagogia instituiram-se os atos que as crianças poderiam ou não praticarem. “Os pais, as famílias, os educadores, os médicos e, mais tarde, os psicólogos, todos devem se encarregar continuamente desse germe sexual precioso e arriscado, perigoso e em perigo; essa pedagogização s manifestou sobretudo na guerra contra o onanismo (masturbação), que durou quase dois séculos no Ocidente”. (Foucault, 2006, p. 115).

No século XIX a tendência política era trazer o indivíduo como centro da sociedade. O “direito” à vida, ao corpo, à saúde, à felicidade, à satisfação das necessidades, o “direito” acima de todas as opressões ou ‘alienações’, de encontrar o que se é e tudo o que se pode ser, nos explica porquê o sexo era foco de disputa política. O corpo agora era auge de limites, restrições e disciplinas. O sexo era ao mesmo tempo, a vida do corpo e a vida da espécie.

Nos séculos XVII e XIX elaborou-se uma ideia da sexualidade na infância por presença (anatomia masculina) e ausência ( feminina), e no adulto, a medicina tentou introduzir a ideia de consequências sérias à utilização da sexualidade precoce, tais como: esterilidade, impotência, frigidez, anorgasmia,a anestesia dos sentidos. Caso o jovem adolescente praticasse a masturbação.

Além da sociedade politizar o sexo, a religião o culpabilizou. Com as afirmações teológicas dos primeiros pais da Igreja católica exigindo abstinência, inclusive afirmando que o ato sexual seria permitido entre casais somente para procriação. mesmo que o protestantismo tenha adicionado o prazer ao sexo entre os casais, colocou várias restrições aos atos que poderiam praticar, mesmo dentro do casamento.

Segundo Foucault (2006), no séc. XIX, a sexualidade foi esmiuçada e cada existência, nos mínimos detalhes. Podemos até inferir que não somente a sociedade, mas também a religiosidade tentou controlar tanto a disciplina do corpo, quanto regular toda a população.

No século XX vimos a sexualidade ser tratada e discutida a partir de Freud, o relatório Kinsey, o relatório Hite, Masters e Johnson, Kaplan, e a explosão do “direito” à paz e amor. A liberação sexual iniciada com a era hippie (década de 60), o movimento feminista (década de 70), o surgimento da pílula anticoncepcional e do preservativo liberaram a expressão sexual, novamente reprimida através da descoberta da Sida ( AIDS).

No século XXI experimentamos os relacionamentos líquidos (Bauman) e a fragilidade dos laços amorosos, tornando a sexualidade parte essencial da vida, porém promotora da insegurança e transitoriedade dos relacionamentos.

Encerramos com uma citação de Foucault: “Por vários séculos muitos ardis nos fizeram amar o sexo, tornaram desejável para nós conhecê-lo e precioso tudo o que se diz a seu respeito.(…) Devemos pensar que um dia, talvez, numa outra economia dos corpos e dos prazeres, já não se compreenderá muito bem de que maneira os ardis da sexualidade e do poder que sustêm seu dispositivo conseguiram submeter-nos a essa austera monarquia do sexo a ponto de voltar-nos à tarefa infinita de forçar seu segredo e de extorquir a essa sombra as confissões mais verdadeiras””. (2006, p.174)

 

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1- a vontade de saber. 17a ed. Rio de Janeiro: edições Graal, 2006.

GRANDESSO, Marilene. Sobre a reconstrução do Significado – Uma análise epistemológica e hermenêutica da prática clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

HOUAISS, http://houaiss.uol.com.br. Pesquisado na internet 26/06/2014.4

MARINO, Sueli. O discurso erótico – A construção social do erotismo e sua influência na sexualidade – Mestrado em Psicologia clínica – São Paulo: Puc, 2013.

PAZ, O. A chama dupla – Amor e erotismo. Lisboa: Editora Assirio & Alvim, 1995.

RODRIGUES, Silvia Geruza F. Sexo – Entre a culpa e o prazer. São Paulo: Fonte editorial, 2012.

 

 

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