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Filhos: Feitos para voar.


Sempre ouvi dizer que quando se tem filho, tudo muda na sua vida. Aliás, também sempre falei esta frase para amigos quando descobria que estavam grávidos. Vocês sabem que são os dois que engravidam, não somente a mulher. Engravidam de sonhos, de expectativas, de planos e projetos para o bebê que entrará na sua vida.

Minha filha Cynthia tinha crises de garganta e febre mais fortes do que os outros. Lembro-me que com um ano de idade, ela adoeceu gravemente por uma semana. Recordo das noites insones que passava com ela no colo, porque a dor dela era a minha. Afirma Rubem Alves, que os pais sofrem por não conseguir transferir a dor dos filhos para eles mesmos, pura verdade. Lágrimas desciam dos meus olhos quando eu, sentada durante a noite, segurava-a no meu colo enquanto a tosse e seu choro rolavam noite a dentro. A dor de um filho é a dor de um pai ou de uma mãe.

Recordo a primeira palmada que dei nas mãozinhas da Carol, acho que doeu mais no meu coração do que na mão dela. Eu havia lhe dito para não derramar a comida no chão (ela também tinha somente um aninho) e ela propositalmente a jogou fora, dizendo: Mommy, it’s gone! e começou a rir. Com o coração doendo, peguei sua mãozinha pequena e fofa e dei uma palmada com um chinelo de sola dizendo: Carolina, this is a no no! (O que significa: isto não se faz nunca!!!)

Levantei da mesa e fui para o quarto chorar após discipliná-la. Desnecessário dizer que sempre que punia e educava meus filhos, quase morria de ataque cardíaco. Era simplesmente duro vê-los chorar ou com medo. Doía em mim, mais do que neles. Mas, disciplinar era preciso para o bem deles.

E o Pedro, sempre foi um menino doce e bom, mas dava muito trabalho nos estudos. Dizem minhas filhas que ele foi o mais mimado. Realmente, deve ter sido o que mais me manipulou. Eu sabia que estava sendo levada por sua lábia, mas deixava, como assim faço até hoje com meus netos. Ah, eles fazem de mim gato e sapato…mas eu adoro. A Gabriela tem um jeitinho especial de me pedir “leitinho” duas ou três vezes na noite, quando vem ficar comigo a noite inteira. Finjo que não é errado, faço com um carinho especial, porque sei que lá de sua cama, ela está rindo de mim. O que ela quer mesmo, não é o leite, nem sei como ela aguenta tanto leite à noite antes de dormir, e sim minha atenção.

Mas, os filhos crescem, tornam-se adolescentes, e criam asas. Eles querem voar. Eles sabem que não nasceram para suprir nossas expectativas e concluir nossos sonhos inacabados que inadvertidamente projetamos sobre eles. Eles querem ter suas próprias experiências. Querem tatear e descobrir o mundo por si só, e nos deixam tontos e confusos ao ver que não mais controlamos sua maneira de vestir, (lembro que as meninas me perguntavam o que vestir, só para usar o contrário), seu gosto musical, seu estilo, sua maneira de pensar. Eles agora tem vida própria.

Rubem Alves certa vez escreveu que filho nenhum tem o direito de morrer antes dos pais. Eu gosto de parafraseá-lo dizendo: Filho nenhum tem o direito de morar longe dos pais, principalmente se levam os netos com eles.

Contudo, eles se vão, alçam voos e ficamos aqui, com esta dor no coração, com esta saudade, com esta nostalgia do tempo em que eles nos davam tanto trabalho, fraldas à noite, choros, levá-los para inglês, natação, tanto trabalho que ficávamos pensando: quando esta criança vai crescer e parar de me dar trabalho?

Amigo, amiga, tenho uma boa notícia e uma má notícia para você: a boa notícia é: seu filho ou filha vai crescer, ser independente e provavelmente ir para longe de você. Isto é bom. Você não quer que seus filhos fiquem imatura e eternamente grudados em você , não é?

A má notícia é: não dá para se acostumar com a distância, e isto dói muito! O bom mesmo seria que eles permanecessem para sempre no nosso colo, para que os protegêssemos de muito sofrimento…Contudo, a realidade é: eles irão e encontrarão seus próprios caminhos, e a maneira que você encontrará para sobreviver é entender que você criou e educou seus filhos exatamente para isto: para que saibam sair e conquistar o mundo.

No mais, é esperar que o que você plantou neles enquanto pequenos, crie raiz e mais tarde produza bons frutos.

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2 comentários

  • andréa disse:

    estou passando por isto e é muito difícil. Passei 25 anos de minha vida em dedicação exclusiva a meus 2 filhos. Hoje já não tenho a importancia na vida deles como antes, porque sobrevivem bem sem mim. agora preciso buscar me cuidar e construir meu próprio caminho sem eles. Ainda vivem comigo mas não é mais a mesma coisa….sinto-me inoperante, como sem função. Chegou o momento de mudar meu interior e olhar para mim e não mais para eles. Isto tudo me traz uma impressão de que estou envelhecendo com meu esposo e que estamos sós. Mas ao mesmo tempo não somos velhos. è algo estranho de se sentir! Mas são as curvas da vida. Ela não anda em linha reta. Vamos em frente… a vida continua!

    • Silvia Geruza disse:

      sim, a vida continua. Agora resta que vocês dois reestruturem as suas vidas para aproveitarem o tempo que lhes resta com outra mentalidade. Um abraço caloroso.

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