
Chovia copiosamente lá fora. Ela dormia absorvida nos seus sonhos coloridos.
O mundo parecia somente cor de rosa para ela. Sentada na janela, rodeada
de flores no jardim ela esperava seu príncipe encantado.
Certamente ele viria montado em um cavalo branco e
a levaria para longe daquele sofrimento. Eles passavam, vinham e iam sem notá-la.
Para onde foram todos príncipes dos contos de fada?
Finalmente, um deles parou. O seu sonho se tornaria realidade.
Montou na sua garupa e partiu. Compartilhou vários dos seus desejos,
aspirações, gostos, desgostos. Confiou no seu amor.
Finalmente, vieram os filhos: a esperança de um lar tranquilo.
Brincadeiras nos parques, fraldas trocadas; choros noturnos;
primeiro dia de escola; saudade das viagens de férias;
como seriam seus filhos quando crescessem?
E o fruto do seu amor crescia a cada dia. Ela continuava sonhando.
Nenhuma tempestade alcançaria seu lar. A Grande Bolha a protegeria
de sofrimentos desnecessários.
Inquietações existiam, mas ela preferia não falar. A proteção da sua família
importava mais do que sua própria satisfação. Enquanto ela dormia,
a inundação continuava. Mas, nos seus sonhos havia rosas.
De repente, quando notou que a água invadira sua casa, ela tentou parar a
catástrofe pegando cada pétala de rosa e calcando-as inutilmente sobre a água,
que continuava a subir. Seu esforço não lhe ajudaria.
Acordou. Decepcionada observou que sua casa já boiava,
longe do chão, junto com todas as outras casas, à deriva,
sem saber aonde iria parar.
Silvia Geruza F. Rodrigues
Gostei muito do artigo, pois as vezes andamos em um mundo de faz de conta a despeito da realidade da vida, e geralmente quando acordamos desta utopia é tarde e já perdemos boa parte da realdade e junto com ela a oportunidade de amadurecermos.