Hoje faz três anos, que exatamente no mesmo lugar em que me encontro hoje, no topo de uma montanha longínqua recebi a triste notícia de que meu amigo Allison Ambrósio falecera. Um aneurisma o levou repentinamente do nosso meio com apenas 47 anos de idade. Tenho uma teoria superficial, quando tento me consolar com a perda de alguém que muito amo, que os bons geralmente vão primeiro, porque Deus os ama tanto que os quer logo junto dele. Porque observo que os maus continuam vivos por muito tempo, talvez Deus lhes dando mais uma chance diária de se consertarem.
Claro que é uma teoria boba e totalmente falha. O fato é, que pessoas boas, artistas, bons escritores, generosas, deveriam viver até os 105 anos, se possível. Contudo, a vida é implacável muitas vezes conosco e nos rouba do que há de mais precioso. Em 2010 foi a morte que nos surpreendeu levando o que de mais precioso havia no mundo musical, artístico, e um dos poucos amigos verdadeiros que eu tinha. A morte foi implacável, veio sem avisar, sorrateira, mas rapidamente e não nos deu tempo nem de dizer adeus.
Allison era dessas pessoas que ao lado dele você nunca ficava triste. Ele conseguia fazer piadas até de tragédias da sua vida, como a de um dia em que ele e sua inteira família foram assaltados dentro de um ônibus indo de Fortaleza a Natal. Todas as vezes que nos reuníamos ele contava a mesma história com nuances que nos faziam gargalhar. Ele tinha duas frases que me faziam rir muito, pelo seu modo peculiar de pronunciá-las: “Que dureza!”, quando falava da nossa falta de dinheiro e de coisas inusitadas com as quais nos deparávamos. E: “vocês que são brancos que se virem, enquanto isso eu fico na minha senzala tocando meu atabaque”, quando ele queria que eu resolvesse algum problema sem o envolvimento dele.
Quando ele ia para São Paulo, e por acaso eu lhe dissesse que o apto já estava lotado de visitas e que ele teria que se hospedar em outro lugar que eu lhe arranjara, ele esperneava e dizia que só iria se fosse para ficar lá em casa nem que dormisse na sala de visita. E, ao chegar, passava até duas ou três horas da manhã com o Ricardo explorando poemas na internet, lendo músicas novas que havia escrito, comentando sobre esse ou aquele poeta e os dois tinham noites de sarau cultural, com ele tocando, recitando poemas ou lendo algum poema que gostara, sendo retocado aqui e acolá pelo Ricardo. Eu insistia para que os dois fossem dormir, até entender que esses momentos eram preciosos para eles, ia para minha cama de tão cansada enquanto eles continuavam seu sarau cultural.
Em muitos aniversários de casamentos nossos em Junho, levamos Allison e Jaqueline conosco, para que eles também pudessem celebrar o deles que já havia sido em Abril, ou Maio. Curtíamos noites alegres regados a vinho, gargalhadas, memórias e muita amizade. Allison conseguia rir e chorar ao mesmo tempo, nem pode falar de mim. Ele era uma constante fonte de alegria para qualquer pessoa que convivesse com ele.
Hoje, sua filha me enviou algo que ele escreveu sobre mim em Março de 2009. Um dia em casa ele viu meu IPOD e me pediu.Tentei convencê-lo de que não era uma boa ideia porque eu havia coletado aquelas músicas ao longo de anos de corridas,mas acabei cedendo. Dei-lhe meu Ipod com todas as músicas que coletara ao longo de anos para minhas corridas na companhia de cantores nacionais e internacionais. Sempre dei presentes bons ao Allison, mas nenhum deles se comparava aos presentes subjetivos e abstratos que ele me dava: em todos meus aniversários ele escrevia poemas para mim (usava o que ele tinha de mais precioso: seu dom artístico tanto com palavras quanto com música) ou pequenos artigos cheio de elogios que levantavam minha auto-estima a ponto de meu ego quase explodir quando os lia.
Hoje, neste dia triste e em uma situação que me encontro onde minha auto estima precisava muito de um estímulo, recebi este presente da Julie, sua filha, onde meu grande e querido amigo, mais uma vez conseguiu levantar um pouquinho minha auto-estima e me relembrar de quem eu sou, talvez um pouco exagerado, mas, às vezes ajuda muito saber que alguém um dia pensou tão bem sobre você! Copio de seu blog:
http://criacoesdaalma.blogspot.com.br/2009/03/jubinha-e-nota-10-um-ingrediente-novo.html
“SÁBADO, 7 DE MARÇO DE 2009
Um ingrediente novo foi associado às minhas manhãs de exercício: um IPOD com algo entre um milhão e dois milhões e meio de músicas. É certo que estou exagerando, mas é que nunca são repetidas, desde que comecei a escutar esse presente – dentre tantos – que recebi da Silvia Geruza.Ela é dessas mulheres absolutamente originais (nunca encontrei ninguém igual a ela), visceral, apaixonada, explosiva e triste, tudo junto, tudo batido no liquidificador da vida. Generosa, não há uma ocasião, por menor que seja, em que eu não esteja sendo alvo de sua bondade, dos seus mimos e, de vez em quando, até de suas ressacas emocionais!Às vezes tenho vontade de lhe dar uns “catiripapos”, quando percebo que ela encanou com alguma coisa e dela não quer se soltar. Noutras, a lembrança dessa admirável mulher, estudante profissional por vocação e vício me joga pra frente, me faz acreditar que o tempo só é implacável para aqueles que não têm determinação e nem um plano a cumprir.
A programação musical do IPOD é um caso à parte: de Rod Stwart a Seu Jorge, passa por Zélia Duncan, chorinho, Djavan/Vercilo, Zizi Possi e vai, como diria o Lenine, “nas ondas do seu pensamento”. Jubis, como é chamada SOMENTE entre nós, os de casa, parece o slogan do Brasil do Garrastazu Médici: “Ame-a ou Deixe-a!”. Ainda bem que só o Slogan!
Pois bem: resolvi pagar o que devo. Pedalar na Beira mar norte da Ilha de Floripa é contemplar garças, gaivotas e muitos outros tipos de pássaros voando. É ver a velhinha que toma um sol no banco de concreto e o casalzinho se beijando no gramado perto do píer. É ver o maratonista correndo em seu treino habitual, é contemplar milhares de formas das nuvens sobre as montanhas ao longe. É sentir o vento frio que “vem lá do sul” e curtir uma sensação inigualável de felicidade e liberdade.
Tudo isso, regado a canções de todos os tempos, de todos os estilos e, conseqüentemente, para todos os momentos desse enorme caleidoscópio que é a nossa vida. Aí que entra a Geruza. Intensa, batalhadora, persistente e disciplinada, ele conseguiu montar um repertório “à sua imagem e semelhança”, que eu não me canso de ouvir e nem ouso alterar. Todas as vezes que vou correr ou pedalar com esse som no ouvido, lembro dela. Resolvi registrar. E como diz o Rod Stwart em uma das canções que ela gravou aqui…
HAVE I TOLD YOU LATELLY THAT I LOVE YOU?
