Encontro íntimo

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MISERI+CORDIS. PROCURA-SE!

Quando engravida-se, jamais se imagina por quais dores irá passar. Tudo é motivo de alegria. O primeiro ultrasom, ouvir a primeira batida do coração daquele pequeno ser que  encontra-se em pleno desenvolvimento. As pontadas na barriga, o  quarto, o enxoval, finalmente chegou a hora tão esperada: ela nasceu!

As noites mal dormidas, as trocas das fraldas, tudo é esquecido ao pequeno toque de sua mão rechonchuda na face materna. Ah, a maternidade, o  ato de amamentar, tão íntimo, tão precioso, tão caloroso.

O tempo passa, e a vida implacável traz suas circunstâncias inesperadas. A filha, repentinamente começa a sentir falta de forças nas pernas, imobilizada tem que ser levada às pressas para o hospital. Apenas um pequeno problema: o hospital público não atende este caso porque trata-se de um câncer raro e que poderá matar repentinamente. A criança, agora adolescente precisa ser transferida para um melhor hospital para ser atendida pelo SUS, um sistema de saúde público brasileiro que, segundo os políticos, é ótimo! Sim, até quando se precisa utilizá-lo. O hospital- Beneficência Portuguesa ( nome dito propositalmente), recusa-se a receber a paciente, promete devolvê-la a um hospital sem estrutura, porque o tratamento pago pelo SUS é muito pouco para o que realmente será gasto.

Como a criança é menor de 12 anos, necessita um acompanhante por 24 horas. Detalhe: há uma cama extra vaga no quarto da paciente, mas a mãe, sozinha, sem parentes ou amigos para ajudá-la, deve dormir na cadeira, por ordens expressas do diretor do hospital. A mãe é enfermeira. Trabalha em outro hospital público, teve licença para cuidar da filha, mas paga somente por três dias. Sem vale alimentação que foi cortado e sem pagamento necessita quedar-se no hospital sem almoçar, durante 24 horas por ordem expressa do hospital, mas sem direito a dormir em uma cama sequer. O governo se nega a lhe dar licença remunerada para cuidar da filha.

Ordem paradoxal: você precisa ficar com sua filha 24 horas, segundo o hospital, mas não pode dormir na cama ao lado de sua filha, e sim na cadeira. Você pode ficar com sua filha, diz seu empregador público, mas sem remuneração, não será despedida porque é concursada, mas não lhe proveremos mais seu vale alimentação, nem vale transporte. O conflito se instala no coração desta pobre mãe: preciso cuidar da minha filha, vejo o hospital tratá-la como se fosse morrer a qualquer hora, mas pereço de fome se não tiver meu salário ( mirrado, diga-se de passagem) para comprar alimentação, e sem ter o que comer e onde dormir dignamente para repor minhas forças, como sobreviverei para ajudar minha filha?

A qualquer momento o hospital pode mandá-la embora, porque está lá pelo SUS. Enquanto isso, um julgamento de gastos e mais gastos e desvios de dinheiro por políticos corruptos e seus comparsas se arrasta no Brasil, uns são condenados, outros possivelmente inocentados, e nenhum é preso. O dinheiro do povo, inclusive o desta pobre mulher que passa por este drama enquanto escrevo indignada, nosso dinheiro vai para estes do mensalão, e tantos outros que regam suas festas com faisão, champagnes da mais alta qualidade, vinhos importados, camarões, lagostas, aluguéis de aviões, helicópteros para levar os candidatos, lanchas, etc. etc.

Que país é esse? Que país é esse? Quedamo-nos confortavelmente nos nossos lugares, votando em russomanos irmanados com a Universal, Haddads irmanados com Maluf, e outros mais… Que país é esse?onde não sabemos votar. Que país é esse onde não gritamos aos quatro ventos: CHEGA!

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