A vida anda em ciclos. Nascemos, crescemos, amadurecemos, temos uma profissão, casamos (ou não), temos filhos, nos aposentamos e morremos.
O rei Khronos é implacável, nunca para. Ele trabalha constantemente contra nós. Quem tem filhos sabe bem disso: queremos muito que saiam das fraldas e quando começam a andar pensamos que não teremos mais problemas. Desejamos que saiam rápido da adolescência, que casem, e aqueles cujos filhos já se casaram, sabe que problemas continuam a surgir.
Tudo na vida tem seu ciclo. O ser humano, a família,o casamento passam por fases. Aliás, o famoso clichê: a crise dos sete, dos 14, dos 20 anos de casados, deve ser revisto. Não existem essas crises, e sim passagens de fases que requerem novos ajustes. O relacionamento constantemente precisa ser renovado.
O avanço dos anos trazem ganhos e perdas, por isto precisamos resignificar as perdas.
Quando nascemos somos dependentes dos pais, para tudo. A primeira perda já se nota quando a mãe, após dias de resguardo já não se torna tão acessível a todo choro do bebê. Perde-se a segurança e o aconchego do lar ( quando a família oferece essas condições), no primeiro dia de aula. Aquela escola que parece tão grande, aqueles colegas estranhos que nunca viu, a professora ensinando coisas que você acha dificuldade em assimilar. A aquisição de novos valores, novas crenças, novos conhecimentos sobre um mundo desconhecido até então.
A adolescência traz consigo o luto pela perda do corpo infantil e do colo dos pais. Deseja-se a independência, mas ao mesmo tempo o colo da mãe. Questionam-se valores: religião, ensinamentos dos pais. Parece que os valores e conselhos dos amigos que acabou de conhecer tornam-se mais importantes que os recebido por tantos anos.
O primeiro emprego significa mais liberdade, autonomia, mas também responsabilidade. Pagar suas próprias contas, fazer suas primeiras aquisições. Aprender, ser promovido, crescer!
No Brasil os filhos costumam sair somente quando casam, ou muito tarde, diferente da Europa e Estados Unidos que ao completar 18 anos espera-se que aluguem algum lugar, partam para a universidade e comecem a construir sua vida independentemente dos pais. Os pratos se acumulam na pia, as contas por baixo da porta, a poeira nos móveis. Roupa para lavar, passar. Socorro, quero minha mãe de volta! Como afirmava um comediante brasileiro Juca Chaves: “É aquele menino que parte para o exterior, se dá bem profissionalmente, mas de repente quer voltar para o Brasil porque sente saudade do café da mamãe.” Saudade do colo familiar.
Depois dos 30 parece que tudo muda. Precisa-se encontrar inserido no mercado do trabalho. Alguns fios brancos começam a aparecer, pequenas rugas de expressão. As mulheres pensam: estou ficando velha. Os homens: ainda não plantei uma árvore e nem encontrei uma parceira. O tempo passa rapidamente.
Quando completei 35 anos, recebi surpresa um livro do meu marido: O cristão na meia idade. Perguntei por que aquele presente: ele zombando falou: Você agora é uma mulher de meia idade. Assustei-me. Nem havia me percebido que a sociedade gosta de rotular: infância, adolescência, meia idade, terceira idade, melhor idade…mede-se o ser humano pela idade cronológica. O pior, é que nosso corpo envelhece, mas a mente não. Se bem que há jovens no corpo e velhos na mente. Mas, a regra é que a alma e a mente permanecem jovens, principalmente para os otimistas.
Com 60 anos no Brasil, a terceira idade, melhor idade, ou idoso chegou. Na Europa é 67 e nos Estados Unidos 65. Senior Citizen: Cidadão Maior (Senior Pastor – Pastor Presidente). Sei lá o que quer dizer Senior Citizen, mas indica algumas vantagens: pagar meia nos teatros, cinemas. Estacionar em locais mais fáceis reservados. Andar de ônibus e metrô de graça. Pagar meia em transportes interestaduais. Alguns ganhos com a idade. Ser respeitado (às vezes) pelos mais jovens. Com mais de 60 você pode dizer mais “nãos”, escolhe as atividades pelo que lhe dá mais prazer, não por comodismo ou conveniência. Falar o que pensa, não o que os outros querem ouvir.
Contudo, já percebeu os símbolos para estacionamento preferencial de idosos no Brasil? Um velhinho encurvado, uma velhinha de birote, mas ambos sempre com bengalas, como se o idoso ( odeio esse nome) fosse incapaz de andar, de produzir, de pensar, de se locomover. Os mais jovens (muitas vezes) desenvolvem um preconceito contra os “idosos”. No Brasil a violência contra os “idosos” mostra números alarmantes. Após os 60 o convênio médico aumenta e o salário diminui (com a vergonhosa aposentadoria pelo sistema previdenciário brasileiro, após a quantia imensa paga pelo trabalhador ano após ano. As possibilidades do amor escasseiam. O exercício da sua sexualidade diminui e as doenças aumentam. A disposição da mente não corresponde à do corpo. O espírito não envelhece ( com suas exceções, é claro).
Para os filhos, o envelhecer dos pais constitui-se em um problema, porque ao mesmo tempo necessitam lidar com os filhos adolescentes, a luta pela escalada profissional, o casamento que necessita de constante renovação. A famosa crise dos 40. Socorro: parem o mundo que quero descer, pensam eles.
Aposentadoria para muitos pode significar o início de mais liberdade, mais viagens, mais tranquilidade. Contudo, se alguém colocou todo seu sentido de vida no trabalho, a depressão se instala. O que amedronta e desanima é pensar que o tempo os roubou do privilégio de ser ativos. Precisamos nos lembrar constantemente que a “mente trabalha com as ideias da alma”.(Joan Chittister).
Muitos temem a aposentadoria por acharem que representa a penúltima fase da vida. Por outro lados, outros exclamam: Agora vou começar a viver. Questiono: Será que trabalhar não faz parte da vida? Ela ocorre em todos os momentos: no trabalho, na produtividade, no lazer, nas viagens, no descanso. Viver é saber aproveitar cada instante.
Necessitamos nos conscientizar de que envelhecemos desde que nascemos. O filósofo Sêneca afirmava: “Pobres seres humanos mortais que vivem como se fossem imortais.” Anne Sexton declara:”Nos sonhos você jamais tem oitenta anos”. Os anos são biológicos, o espírito é eterno, afirmou Joan Chittister.
O ser humano que se considera velho demais para dar opiniões, para votar, para tomar atitudes que podem mudar o mundo ao seu redor, para sonhar, isenta-se de viver. A experiência acumulada pelos anos transforma-se em sabedoria. Aprendemos com nossos erros, acertos, dores, alegrias, com o passado, o presente. Sonhar em todos os ciclos da vida é preciso. Rever conceitos, valores, seguir em frente até o último suspiro de vida com os olhos no eterno é essencial para uma vida que valerá a pena.
Silvia Geruza F. Rodrigues

Parabéns pelo texto…
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